A Linha

Manuela Cornely

 

Eu fui buscar um lugar

Longe das minhas terras

Para ser meu lar.

E lá vivi anos, histórias frias e vazias criei.

 

No agora, me perco nas voltas de minha história

E volto pro mesmo lugar:

Aquela casa tapera,

Naquele ranchito,

Com toda simplicidade e na presença daquelas pessoas...

Pessoas que o tempo levou.

 

E no balanço dos ventos me surpreendo

Pensando novamente.

E vislumbrando caminhos que poderia ter percorrido ali mesmo,

Mas não o fiz.

Por medo, talvez...

Por querer alcançar os sonhos na minha cabeça jovem.

Não sei.

 

E no vazio desta sala branca, como meus cabelos,

Revejo momentos maravilhosos de antes:

Antes de viajar,

Antes de mudar,

Antes do agora.

 

E as mentiras que contei agora voltam pra me atordoar.

E os momentos que outrora fora tão confusos para mim, agora me parecem tão claros.

Claros como os olhos do meu primeiro amor.

Claros como os cabelos de minha amiga da infância.

Claros como o céu que havia sob mim há anos atrás.

 

E pela primeira vez,

Com o fechar lento dos olhos,

Me senti em paz.

E embarquei no trem luminoso,

retrocedi.

Aquele trem famoso,

que dele nós só sabemos dos contos

E histórias pra boi dormir.

 

E nessa estrada tão linda que percorri

Que me pareceu tão curta,

Revivi o meu último Natal,

O meu último sorriso,

O meu último momento vivido

E o meu último ato de bondade.

 

O trem estacionara.

Olhei pelos cantos e me encontrei sozinha.

A única passageira, e o único maquinista.

Perguntei a ele o que estávamos esperando:

"Tu deves descer e encontrar a parte de ti que morreu quando daqui tu partiu".

 

Eu desci receosa,

E automaticamente uma onda nostálgica caiu sobre mim

Como se fosse um balde de águas frias.

Ao andar pela estação, revi muitos de meus amigos e familiares

Que pareceram não notar minha presença.

 

Sentada a um banco separado,

Me fitando com olhar de culpa,

Uma moça!

Me encontrei aos 20 anos.

 

Eu e ela embarcamos no trem

E o silêncio percorreu como uma onda de severidade.

Com um sorriso afetado,

ela me olhou lacrimosa e começou a contar:

"Há uma linha, pequena e invisível

Que liga os nossos corações aos nossos amores.

 

Ela nos permite amar e sermos amados.

Ela nos liberta pro mundo.

Ela estica e encolhe,

Mas quando o amor é verdadeiro,

Não há riscos de arrebentar.

 

O amor nos mostra o lado colorido e feliz da vida.

E quando a vida acaba,

E nossas almas são libertadas,

A única coisa que resta são nossas linhas,

que ficam...

Que nos permitem sermos imortais

Sempre."

 

E as palavras dela, me atingiram como uma lança.

Do que bastava viver sem a capacidade de amar?

Me lembrei de meus pais,

A quem não me importei na mocidade, deixando-os pra trás.

Mas nunca desistiram de mim!

Deve ser isso o amor verdadeiro:

Ter alguém e uma razão pela qual lutar.

 

 

 

Me lembrei das noites chorando de saudades do meu povo,

Do meu lugar...

da tapera naquele rancho,

do campo verde,

do cusco parceiro,

do luar...com aqueles vagalumes brilhando pelo ar!

Das broas de milho da mãe e das prosas boas com pai...

 

E percebi que naquele momento,

Eu demonstrei o amor.

Mas não o amor que agora entendia,

era o amor de arrependimento.

 

Com um sobressalto,

Lancei um olhar de entendimento à guria,

E finalmente soube:

Quando eu abandonei, naquele tempo,

o que achava que fosse passado,

Abandonei minha essência...

abandonei meu lar,

De sempre

Para sempre.