A Casa Branca
Manuela
Cornely
M'Bororé era um índio leal e corajoso!
Era o fiel de segredo dos padres jesuítas,
De modo que um grande segredo a ele foi
confiado.
Os padres confiaram no índio
Para guardar seus maiores tesouros
Numa casa Branca, sem porta nem janelas,
No meio da mata.
No meio do nada.
Os jesuítas se foram.
Nunca voltaram.
E o índio guerreiro continuou a guardar
tudo o que lhe foi confiado.
O que pertencia àquelas terras
onde muitos pisaram.
Mas será que as tantas riquezas
que pela lealdade e valentia do índio
seguiam na velha casa guardadas,
Não valiam mais que o ouro por qual tantos lutaram?
Será que o real tesouro lá dentro guardado
Não seria mais importante
que todas as jóias quais ao índio foi
confiado?
O tic-tac contínuo e apressado dos relógios...
Não teve tempo pra parar!
E se passaram anos e anos,
E a história do índio virou lenda.
Dizem que a casa branca nunca será encontrada
No mesmo lugar, no meio do nada.
Em tempos passados,
os índios eram livres
para caçar e morar onde quisessem.
Eram donos de infinitas terras...
até que chegaram os imigrantes portugueses e espanhóis
e de tudo se adonaram.
E mesmo passado tanto tempo,
O homem branco nunca soube partilhar
o que justamente aos índios cabia.
Hoje, esses guerreiros seguem tendo que lutar,
incansávelmente,
em inferioridade de números e de armas.
Lutam pela sua própria terra.
Por um pedaço do que um dia já foi infinito e
seu.
Lutam pela própria existência!
Hoje, pequenos indígenas trabalham nas ruas,
por entre os carros,
Nas sinaleiras,
Arriscando sua vida para ter o que comer.
Isso é tudo o que o homem branco tem a
oferecer?
Na escola aprendemos que os índios são humanos
e vivem nas florestas caçando, são livres!
Seria errado contar a uma criança toda a
verdade?
O que já foram, mas lhes foi arrancado?
Que a balinha que o pai lhes dá todo dia é a
forma de sustento de um índio, criança como ele?
Por que nos tornamos os gigantes da
destruição?
Porque não reescrevermos o destino dessa
nação?
Vamos abrir essa Casa Branca.
Mas agora, não para saquear os tesouros,
Ou para enfurecer o guerreiro M'Bororé...
E sim para aprendermos com o índio
que lá dentro nos espera pacientemente,
Como podemos descobrir os tesouros
dentro de nós mesmos
e abrir a mente de toda nossa gente,
compreendendo o que o índio é!
Tornemo-nos todos como aquele índio fiel,
corajoso e paciente.
Que possamos aprender a dividir a terra
com aqueles que aqui já estavam quando nós chegamos.
E que cada um de nós encontre
dentro da alma os valores e riquezas...
que sejamos casas brancas,
que sejamos guerreiros,
como o índio M'Bororé.