PRA RETORNAR NO DOMINGO

Vitor Lopes Ribeiro

 


Encilho o pingo assoviando

No garrão da madrugada.

À noite, bruxa bronzeada

Vai emponchar outros pagos.

Maula, saudade que trago

Enraizada em desejos,

E logo adiante, revejo,

O tão esperado afago!

 

Sentado sobre o lombilho,

Dou adeus a madrugada,

Cruzando a turva invernada

Num trotezito fronteiro.

Hoje não paro rodeio,

Só a saudade da amada!

É domingo e busco estrada

No rumo em que está seu cheiro!

 

Levo um agrado na mala

Alguns versitos riscados,

Rabiscos encabulados,

Á flor do campo em botão!

Confessarei no chimarrão

Estas agruras do peito,

E se disseres “aceito”,

Entregarei o coração! 

 

O pago, parece outro,

Ganha aromas diferentes,

Adoça o cerne da gente

Com labaredas de romance.

Aquelas léguas distantes

Vão aos poucos terminando,

Já a paixão, vai aumentando

Fazendo o peito ir adiante!

 

Frouxo a boca do ruano

Num ''galopito'' espichado,

Uns quinze dias judiados

Custaram-me a passar!

O brilho daquele olhar

Avisto desde a porteira,

E a saudade caborteira,

Já empeça a se amansar!

 

Ela me espera risonha

No seu vestido de chita,

Duas estrelas bonitas,

Num semblante pura festa!

No mas, apeio depressa,

Rumando á cena do encontro,

Como é lindo o reencontro

Num simples beijo na testa!

 

A silhueta da moça,

Portal de puras lembranças...

Sorriso ingênuo, criança,

Libertando o coração...

No escuro breu do galpão

Um catre desarrumado,

Dois corpos quentes suados

E o mundo em erupção.

 

Ah ‘’tardezita’’ maleva!

Pra dar vida ao sentimento.

Curo os rudes lamentos

Acolherados no peito...

Antes lembrava teu jeito,

Acariciando o  violão

Com a suave canção,

Dos versos que lhe escrevo!

 

O tempo cruza ligeiro.

Esconde a venta, o dia.

No ruano, jogo a encilha,

Estendo a rédea pra andar,

Fica naquele lugar

A dona do meu sorriso,

Inspiração, paraíso,

Querência em forma de lar!

 

O som do trote se mescla

Aos pássaros e a barbela,

Mesmo depois da cancela

Ainda ouço sua voz...

Paz de rio manso, sem foz,

Que me tornou seresteiro,

Quedando-me prisioneiro

Daquele semblante algoz.

 

Ao tranco, retorno a estrada,

Emalo a saudade antiga,

Assoviando cantigas

Cantarolando pra o pingo.

Enfrento, qualquer perigo

Nas lides e invernias,

Pra lidar mais quinze dias

E retornar no domingo!