O FAROLEIRO E A SEREIA

Alcindo Neckel

 

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O vento sopra o braseiro

em tons vagos, efêmeros...

Bordoneando socorros

pra calma do faroleiro...

... sons ecoam no breu

na solidão dos mistérios

a espargir seus calvários

onde o lume se perdeu!

 

São noites enluaradas

que o canto da sereia

eterniza suas lendas

num litoral de areias!

... o som corriqueiro

a ecoar pelo farol

intriga o faroleiro

até um novo arrebol!

 

Fábulas de desencantos

sobre tangência dos fatos

justificam meros atos   

de uma sereia aos prantos!

... o sábio subcontinente

nas ondas da realidade

se esquiva da verdade

nos mergulhos do presente!

 

A sereia não vê suas lágrimas

que se diluem caladas

a dispersar tantas penas 

por entre as águas salgadas!

... momentos tristes e vagos

salgaram mais as marés

na dor lenitiva dos amores

sobre seus tristes afagos!!!

             

O faroleiro garante a luz

pro rumo certo dos barcos.

Porém, junta seus cacos

na centelha que conduz.

... também chora o amor

ao sevar de cada mate

na dor que traz o embate

com gostos de dissabor!!!

 

Noite com sono, ronda...

Pelo farol que cuida 

avistou sobre as pedras

a sereia angustiada!

... meiga, amor ferida

foi encurtar o espaço

com razões de vida

o calor do seu abraço!

 

No poncho do faroleiro

a proteção que faltava...

Nos gestos, a amparou

dos medos do mar escuro...

A sereia, olhos azuis,

indiferentes, nunca vistos!

Olhar que uniu dois opostos

com seus desejos iguais.

 

               -**-

Acordou o faroleiro

na sua mesma solidão

guardando a vaga ilusão 

foi acender o palheiro.

... entre o sonho e dúvida,

os rastros da realidade...

- Concluiu que a felicidade,

partiu, sem despedida!!!

 

Todo dia, o faroleiro...

Bombeava, o mesmo

mar revolto ou calmo...

Um mar agitado e brabo

na intenção que algum dia...

Meio musa, meio peixe

retornasse no desleixe

da sua alma vazia.        

 

            -***-

O tempo... sem presa

pro faroleiro chegou

e o farol se fez ruina

numa réstia que ficou.

Ah quem diga! certamente!

Nas noites de lua cheia

sai do mar uma seria

pela orla irreverente.

 

Noite seguinte, chuvosa...

O farol acendeu sozinho

pra iluminar o caminho

dos barcos na tempestade,

traiçoeira e impetuosa!!!

... a alma do faroleiro  

ainda observa o esplendor  

na espera da sereia

pra ter um pouco de amor!

 

O mar espalha suas ondas

pra findar sobre a praia!

O solitário cantar da sereia

ainda pela orla se espraia!

... talvez, procure o faroleiro

pra escutar sua canção

e com amor verdadeiro

ignore a triste solidão!

 

Embora ninguém saberá

se era sonho ou realidade

que impregnou de saudade

o faroleiro na espera.

... fatos se fazem lendas!

... desejos tornam amores

sobre um céu em multicores

de mil histórias contadas.