MEU MUNDO

José Luis Flores Moró

 

Meu mundo antigo é de lonjuras vastas

pra além de mim, a me forjar a estampa!

E faz pensar que esse universo todo

é só um pedaço que se ergueu do pampa.

 

Há um céu azul de nuvens pardas

matizadas nos verões molhados,

com garças brancas que, quedam

no éden verde-musgo dos banhados!

 

Ali cravei um ranchinho no tamanho

da minha simples e total felicidade,

com cadeiras de balanço pras mateadas,

onde absorvo tardes de saudades.

 

Nos açudes flutuam os aguapés

com traíra caçando nas beiradas

e rãs coaxando preguiçosas

no calmo lençol de águas paradas.

 

Há também, alambrados que se perdem

na distância, em direção do povo,

com moirões plantados, bem profundos,

dando a impressão que vão brotar de novo!

 

Quem quiser ver o meu mundo,

terá que o ver bem assim:

Um tempo que foi passado,

passando dentro de mim!

 

É um mundo simples de sotaque xucro

e águas filtradas nas pedras de sangas

com o gosto doce de quem dá garupas

para o mergulho de flores e pitangas!

 

Tem um ar perfumado com fragrâncias

de jardins que o vento cultivou nos campos,

e uma via láctea pelo céu, bordado

pelos pontos de luz dos pirilampos!

 

O dia tem sabores adocicados

pelo néctar das peras e maçãs,

e um galo com uma ópera na goela

alertando pras lidas da manhã!!

 

Tem um pingo manso que rumina as horas

sobre um treval de pasto, no potreiro.

E um cusco baio, policiando atento

os pequenos movimentos no terreiro.

 

Tem correntezas, remansos e águas rasas

para inundar os frenesis da alma,

com banhados, riachos e cacimbas

que se abastecem de garoas calmas!

 

Há cantos de sabiás nas serenatas

que amadrinham tardes de guitarras

e, nas matinais de cores e algazarras,

sinfonias de aves e cigarras!

 

Quem quiser ter o meu mundo

terá que o ter sendo assim:

domador dos tempos xucros

que existem dentro de mim!

 

Meu mundo é um teto de galpão moreno

com picumãs e brasas do fogo de chão,

nas cinzas quentes que flutuam ao vento

quando o silêncio vem bater tição!

 

Há um céu no fundo dos olhos parados,

que refletem léguas, no olhar do potro

e mostra caminhos em que peão e pingo

sabem que dependem um do outro!

 

Existem trempes negras, enferrujadas,

dependuradas em pregos, nos oitões do tempo,

e couros sovados serpenteando o laço,

unindo a alma do guasqueiro aos tentos!

 

É um mundo de tropas, domas e rodeios,

manhãs de esquila, tiros de laço e pealos,

forjados aos dias de lida e noites de ronda

sobre o lombo tranquilo desses cavalos!

 

Tem o choro das carretas preguiçosas

puxadas por bois mansos, aparceirados,

um roçado de milho, mandioca e feijão,

plantados nas coivaras do passado!!

 

Tem porteiras esperando a volta

de alguém que, um dia, se tornou saudade

quando escancarou caminhos corredor afora

na busca de outros rumos, na cidade!

 

Quem quiser ser o meu mundo,

terá que ser, sendo assim:

Meio passado e presente

pelos futuros de mim!

 

Meu mundo tem sacis e boitatás,

negrinho pastoreando em noite escura,

mas também tem fé na bíblia, no rosário,

no Pai Supremo e no poder da benzedura!

 

É um mundo sem muros, sem divisas,

mapeado por guerreiros e caudilhos,

que meu pai deixou-me em testamento

e o que tenho pra deixar aos meus filhos!

 

Para viver no meu mundo,

tem que viver bem assim:

Ser uma parte do ontem

no hoje que vive em mim!