MANUELZINHO, UM HOMEM RETO

Carlos Roberto Hahn

 

Manuelzinho dispensou o amadrinhador

pra declamar seu poema de vida.

Andou sempre de ombros vergados

por ter uma carga sofrida.

 

Na terra em que enterraram meu umbigo,

eu lhes juro, eu lhes digo, creiam-me.

Andava um mendigo com a espinha curvada.

Mas, se seu andar era torto, era reta sua mirada.

Seu nome era Manuel – só nome, sem sobrenome.

Sem linhagem, sem estirpe ou brasão.

 

Pelas retas ruas da cidade, andava torto, recurvado.

Apesar de seu defeito trazia dentro do peito... um coração!

Não sei por que razão em sua mente faltava a razão.

Mas dentro do peito tinha... um coração!

Mesmo que o destino lhe tenha negado o tino,

ele tinha no peito um coração ... de menino!

 

Seu coração era de fidalgo,

de quixotesco cavaleiro errante,

como o personagem de Cervantes,

que queria endireitar o mundo.

Que ironia, um torto querer endireitar o mundo!

 

Manuelzinho não tinha um Sancho parceiro,

nem um Rocinante pra ser cavaleiro.

Sequer tinha uma doce Dulcineia pra dedicar seu amor.

Nunca leu a saga de Don Quixote de La Mancha.

Talvez por isso seu desatino,

seu andar sem destino, seu sorrir de menino.

 

Quer endireitar o mundo, mas anda torto?

Será que Deus se enganou na mensagem?

Mandou-nos uma incorreta imagem?

 

Mas, se Deus escreve certo por linhas tortas,

quem sabe, seja preciso pensar melhor.

 

 

Sim, era curvada a sua espinha, mas não, por submissão.

Se era por divina imposição, talvez tivesse uma missão?

 

 

Volto aos tempos de guri.

Então lembro daqueles dias.

Quando eu ouvia, alguns da “aristocracia”,

Que, com gracejos e ironias, gritavam ao pobre diabo:

“Anda direito, Manuel!”

Então ele, de pronto, se aprumava.

 

Será que quem anda ereto pode, assim por decreto,

saber o que é certo e o que é errado?

Quem nasceu assim arqueado, será que não foi mandado

pelo Mestre das alturas?

Aquele que escreve reto por linhas tortas?

 

Esse quase Quasímodo eu via com medo.

Mas também com alegria, pois no fundo eu sabia

que aquela figura bisonha,

nem por torto deixava de ser risonha.

O que será que sua alma sonhava?

 

Manuelzinho nunca leu Cervantes,

nem sabe do cavaleiro errante que queria mudar o mundo.

Mesmo sem saber, ele nos trouxe sua lição.

 

Deus escreve reto por linhas tortas.

Nós sabemos de cor o ditado e o repetimos amiudadamente.

Pena que não saibamos ler os escritos de Deus.