Cândido Brasil
Campo aberto, sobejo... onde o pago suspira,
o vento
toca sua lira com um campeiro arpejo
e o
senhor tempo, andejo, ao tranquito se embala,
com seus
passos de bengala, entre um e outro bocejo...
Campo aberto, moldura... de paisagens multicores,
de
personagens, olores, espraiados na lonjura,
com
nuanças de ternura e adornos transcendidos,
docemente
concebidos do ventre da mãe natura.
Campo aberto, magia... no despertar das manhãs,
com vozes
anfitriãs ecoando na geografia,
em
rústica sinfonia decantada amiúde,
com o
hálito do açude saudando raiar do dia.
Campo aberto, altar... para salmos, orações,
galanteios e
canções, para se fazer notar,
bandos de
cores a voar, com gorjeios de alegria,
espalhando
poesia emplumada pelo ar.
Campo aberto, rocio... capão de mato fechado,
barbas de
bode em bailado, sarandeando em estio,
murmúrio de
água no rio, cochichando num mergulho,
espumas em
pedregulho por limos com arrepio.
Campo aberto, fortim... feito de terra e de pedra,
onde o
verdejo se medra entre touceira e cupim,
timbre com
som de clarim em bico de bem te vi,
proteção de
"laus sus cri" e guarda de camoatim.
Campo
aberto, mundéu... prendedor de tardes mansas,
casulo de remembranças cabresteadas a lo
léu,
condomínio de
téu-téu, que desperta num estorvo,
com asas
negras de corvo em cruz flutuando no
céu.
Campo aberto, remanso... de reses e cavalhadas,
com
pelagens de manadas no silêncio do descanso,
seres de
espírito manso a ruminar o capim,
esperando pelo
fim do senhor tempo em avanço.
Campo aberto, fronteira... cortada por corredor
artéria que
vai compor armas, brasão e bandeira,
da velha
pátria campeira que tem coração no mapa
e aos
olhos se destapa no cruzar d’uma porteira.
Campo aberto, cartilha... de seleção natural,
vertebrado e
vegetal comungando maravilhas,
sepilhado de coxilha com rodeios casuais
e
saltos ornamentais de insetos nas flexilhas.
Campo aberto, memória... na tarca de tempos idos,
combates
acontecidos nas páginas da história,
pretérita
trajetória, pra formação no presente,
de um
futuro decente,pra geração sucessória.
Campo aberto, reponte...
de ágeis sombras andarengas,
véus das
nuvens avoengas que se desfraldam defronte,
no
consagrado apronte do encontro em lampejo,
do dia e
noite num beijo, sobre a linha do horizonte.
Campo aberto, portal... de causos, lendas e medos,
território de
segredos em guarnição eternal,
bênção de
pia batismal com rosários sacrossantos,
que
espantam sarapantos dos ermos do matagal.
Campo aberto, encerra...
de um mundo singular,
com aura crepuscular,
onde a visão se descerra
e o sentimento aferra, no sinete da certeza,
que esta rural beleza é um naco do céu na terra.
Campo aberto, cenário... de coloridos matizes
fauna e
flora em raízes de perfeito relicário
e o
senhor tempo, lendário, com sua sapiência certeira
abre e
fecha a porteira das folhas do calendário.