AUTORETRATO QUE FIZ DE TI
Joseti Gomes
Era um dia frio, gelado,
quase final do mês...
Mês de maio, bem me lembro…
Guriazita era atrevida!
Chegou com a cara amarrada
e mostrou-se encabulada,
brincando junto às demais.
Tinha um ar de desconfiada,
de quem escutava passos,
passos que ninguém via.
Tinha um jeito de birrenta,
brigona, que a pobre mãe
quase que não aguenta,
mas filhos, a gente sabe,
são sempre vistos iguais.
Foi ficando pela casa,
observando e sentindo…
O peito ainda pequeno
já acumulava os serenos
que encharcavam a alma
daquela infância sem nome
que a tal menina birrenta
não conseguia entender.
Era um corpo tão pequeno
para guardar tanto medo,
para abrigar os segredos
que se escondiam na face
dos espelhos mais cruéis.
Era somente mais uma
naquele terreiro grande
com jardim e margaridas.
Gritos chamavam de longe,
eram sonhos, pesadelos…
Não teve flor nos cabelos
pois não queria dançar!
Queria ter liberdade!
Precisava ter um sentido,
aquele viver sofrido
de pouco pão e de fé.
A chuva encobriu o pranto
na cantiga que falava
de um amor que não viveu.
Era ainda uma criança,
mas a cantiga insistia.
O coração atrevido,
da guriazita birrenta,
falava de um idioma
que mora na poesia.
As portas foram abertas
e um mundo novo surgiu.
Claro que ninguém viu,
assim como não ouviram
aqueles gritos que tinha
dentro do peito pequeno,
encharcado pelo orvalho,
naquela infância sem nome.
A brigona era criança!
Criança não entendia
das diferenças, dos mandos,
das mesas, camas e prantos,
dos jardins e margaridas.
A guria, encabulada,
pegou a pena e papel,
desenhou um labirinto
que deu o nome de vida!
Juntou cadernos e letras
guardados numa gaveta
escondida no porão.
Escutou todas as vozes
de quem gritava lá dentro
e entendeu o sentimento
daquela angústia sem fim.
Uma menina assustada
caiu no fundo do poço
porque, um dia, teve sede
e o copo estava vazio.
A guriazita, teimosa,
que tinha medo do escuro,
falou da sua história
nas entrelinhas dos versos
que escreveu e ninguém viu.