DO OUTRO LADO DO RÁDIO
Vinícius Antônio Machado Nardi
Muito
embora não tenha água,
nem praia
e tão pouco maré,
tem alma
de campo e estrada
-
o que deixa sempre o ouvido em pé-.
“Olha guri,
pra tua
mãe cabelos brancos”...
“Mas que
barbaridade de letra bonita.
Desgraça é este chiado lá no fundo.
Maria... ô
Maria...
me traz um
pedaço de bombril”
E
lá se vai o aço na antena.
O
rádio em sua caixa morena,
-
molhado de tanto sol –
pousa
agora manso embaixo da figueira...
“Olha o dourado que bateu no espinhel...
Traz
a canoa que rio fundo não da pé”...
“Barbaridade!
Hoje de tardinha vou pra cidade.
Tem que deixar recado pra tia Quitéria
e já aproveito
pra trocar ideia
com esse moço
locutor...”
No
dia seguinte...
“Alô dona
Quitéria...
Teu sobrinho Almiro mandou avisar
que te espera no
domingo
- que vai ser um dia dos
mais lindo –
e que a ovelha
gorda vai carneá”...
“ E não é que
sai até uns versinho...”
O
dia lindo da semana
vira e
revira em si.
Cai
a chuva.
E
leva a onda pro chão.
Enquanto
isso, no bolicho...
“- Buenas... que baita
viração.
Isso é coisa da virge
que anda solta.
- Mas diz que logo volta o sol pro campo,
segundo o moço da
rádio e o homem da capital
- Mas chê ... tu
anda escutando essas bobage!”
E
calam-se os gritos e pingos.
Do
outro lado da sala
com um
sorriso matreiro nos lábios
-
e o parceiro embaixo do braço,
já que é
nobre artista do cenário –
sai de
cena o Almiro.
Volta
pra lida
que o
cheiro da chuva
é perfume
raro no pasto.
“E
agora, pra fechar a empreitada
um baita
verso do Jayme...”
Bzzzzzz, shhhhhhhhh...
“Em
Brasília, 19 horas”
“Mas que
diacho...
Tinha que ser agora?
Mas que deixasse pra outra hora
As notícias
lá de cima...”
E
o rádio, pequeno parceiro,
anuncia a
vida do braseiro
e singra
na fronte um sinal:
a lua já
vai banhar o campo
melhor é
seguir de volta pro rancho
que o dia
já chegou no final.
Durante
a janta,
- retoçando as ideias –
vem uma
marca nova
pra por
vida na matéria.
No
som alegre e pequeno
bailam
pelo rancho pobre
os
desejos- e as pernas –
de um
pequeno par de vidas.
Depois,
cansada da lida,
a Maria
finge que não escuta,
o último
estampido do botão...
“E vamos encerrando nossas programações...
Shhhhhhhhhhhhhhh, shhhhhhhhhhhhhhh”
E
o rádio se cala.
Seu
parceiro fica só,
conversando
com seus pensamentos.
Escuta
apenas a voz do vento
-
que já não carrega mais ondas em si-.
Silente
murmúrio de campo,
-
será de sanga ou de rio?-
recobre-se
diante da vida
-
e também por causa do frio -.
“E lá se vai a
vida,
em cada noite
escorrida.
Mas amanhã bem cedo renasço
- pois o rádio verga meu aço –
me fazendo
chorar e sorrir.”
E
no primeiro pontear de luz
-
e de som, pra não perder o tom- ...
descobre
então que renasceu.
Sim,
pois entre os zumbidos
músicas,
alertas e notícias,
confesso
amargamente que menti.
Almiro,
que pena, não era eu,
pois vim
depois da magia
que junto
ao rádio se perdeu.
Mas
se uma onda nova
atinge em
cheio meu ouvido
-
e me faz de novo perder o sentido-
descubro
que finalmente renasci.
Em
seu balanço firme e eterno
forte vergador de meu aço
me vejo
assim, correndo descalço
e me
revelo de novo um GURI.