ROMANCE DO CAMBARÁ
Rafel Ferreira
A
língua fina de ferro
lambe a pedra, de arrasto,
e molda o fio do machado
num sonoro vai e vem.
O
arrepio de olhar além
carrega o cheiro da morte,
já que um aço de bom corte
é arma na mão de alguém.
E
foram golpes e golpes
e um tombo seco no chão,
cair é a maior razão
daquele que enfraquece,
mas um cerno não merece
deitar e findar ao tempo
e ir morrendo por dentro
na dureza, que apodrece.
Desgalhado
no facão
e o machado faz a trilha,
deixa entonada a forquilha
numa das pontas marcada.
E o
tronco leva a laçada,
em meio ao mato faz frincha,
se retorcendo na cincha
de uma petiça retaca.
Vem
de arrasto, pra mangueira,
o corpo seco deitado
e pra ser ressuscitado
uma cova ali é casa.
A
sorte não tornou brasa.
Reergue, assim num arranque,
cambará vira palanque
e a forquilha suas asas.
Renasce
ali com a força,
cravado sem ter raiz,
como um eterno aprendiz
a lapidar sua guarida.
O
que antes era partida
agora é só o começo,
pois todos pagamos preço
dos descaminhos da vida.
É peonaço
de respeito,
para toda precisão,
no pealo escora o tirão
do mocho preto pesado,
ou vem de corpo riscado,
a manotaço de casco,
culpa de um potro picaço
rebeldemente atado.
Ganha
a têmpera do tempo:
chuva, geada e mormaceira
e a terra fina da mangueira
as vez
é pó, noutras barro.
Quando
um teimoso ali amarro,
mede forças palanqueado
e o semblante calejado
mostra o valor do trabalho.
É
solitário o Cambará,
com a mangueira vazia,
mas a singela magia
vem dormitar nestes braços.
É
quando surge no espaço
(que
o fim de tarde clareia)
apressada a lua cheia,
mimosa por um abraço.
É um
quadro, por momentos,
do casal enamorado,
para quem cuida de lado
pede que o tempo não passe,
pois é singelo o enlace,
do Cambará braço aberto
com a lua linda por perto,
mimosa por quem lhe abrace.
O
mundo hay que girar
e a lua é passageira,
e tem sua sina viageira
de alumiar noite escura,
mas lá do alto procura
soltar olhares brilhantes,
pro Cambará seu amante
que não entende a lonjura.
A
lonjura é coisa braba,
a saudade mais ainda.
parece o ruim que não finda
e a espera é sempre um alento,
pois amor e sofrimento
se soltam, amadrinhados,
dum palanque encravado
na terra dos sentimentos.
É
triste viver parado,
sem ganhar um corredor,
na busca de algum amor
só lhe resta o sonhar,
se pudesse andejar
tal seu parente Rodrigo,
um caminhante antigo,
que também foi Cambará.
E os
peões vaqueanos da estância,
são tais palanques fincados
nos mangueirões do passado,
vivem presos de histórias,
no corredor da memória
trazem causos bem contados,
de amores mal domados
e prendas que foram embora.
O
Cambará romanceiro
cruza o tempo ali parado,
tal fosse petrificado
num quadro de tempo outro.
É um
campeiro absorto,
onde a inquietude flutua,
vive entre beijos de lua
e manotaços de potro.
Segue
entonado, buerana,
perfil de fibra, fortacho,
com seu semblante de macho
o serviçal do rincão.
Pois
esta é a maior razão:
-Trabalhar
a vida inteira-.
Corpo
duro de tronqueira,
mas mole do coração.