ROMANCE DO BEIJA-FLOR

Henrique Fernandes

Hoje, logo cedo…
antes mesmo do dia clarear,
um beija-flor madrugueiro
se achegou em meu ranchito
já cansado de beijar...
...trazia asas cansadas
e uma inquietude no olhar.

Meu mate, de a muito lavado
amargava as mesmas dores
da pena dos beija flores
que não cansam de voar.

A mesma angústia…
...os mesmos sonhos.
Me refleti em seu ninho
compreendendo o passarinho,
que solitário busca amar.

Virei a erva de lado
e amarguei um beijo amargo
na extensão repentina
de campo, céu e luar.

Encarcerado ao resigno
que delimita a palavra,
restaurei a voz do vento
bandeando rezas e cantos
numa extensão povoeira
que se aliena ao silêncio...
...o dia ainda amoitado
na capoeira da noite,
estendi ao passarinho
meu mate de erva virada,
amargo feito a saudade,
com jujos de madrugada.

Se parou sobre os arreios,
que se quedavam invertidos
num cavalete de angico,
tal se abancasse num cepo
para prosear com um amigo.

Então o beija-flor
abriu a mala do peito
e me contou do seu jeito
de cada um de seus amores.

-Julgam que sou pequenino,
que bato as asas ligeiras
passando a vida estradeira
semeando na flor meus carinhos.

…-Que sina trago comigo,
de passar a vida toda
ofertando o melhor que tenho,
sem receber nem cobrar
nada em troca do meu beijo
deixando apenas meus sonhos
em cada flor que desejo.

Minha primeira paixão
foi uma rosa amarela,
que nasceu em meio ao campo
na costa do corredor.
Trazia essência de vida
e uma carência de amor.

Logo que a vi, me encantei
e por ela me apaixonei
na premissa de seu sabor.

Mas depois da primavera
na troca da lua nova,
suas pétalas murcharam
e seus espinhos, me espinharam
sem nem um beijo de adeus.

Depois a flor da pitanga,
que me encantou com a doçura
e sua terna brandura
junto ao costado da sanga.

Foi intenso nosso caso,
pois, todo o dia a beijava
bebendo em seus lábios rubros
toda doçura da flor.
Mas ela também me deixou
na seca forte de março
quando seu tronco secou.

Por anos a maçanilha
me fez reviver um sonho
que à muito andava perdido.
Mas nosso amor foi ceifado
na colheita do verão
e a perdi do meu beijo
na safra da solidão.

E foram tantas frustrações,
que a cada flor que beijava
meu coração se apertava
com ternura e compaixão.

Lembro de uma florzita
que além de meiga e bonita
me jurou um amor eterno.
mas logo depois do inverno
também partiu a tulipa.

Por isso chego cansado
de não ser recompensado
por nenhum dos meus amores.
Alguns morreram no ciclo
das perenes mutações,
outras, simplesmente
não vingaram com a semente
em duras desilusões.

De flor em flor cruzo a vida,
trazendo em meu bico a doçura
que doa sem receber,
alentos mal compreendidos...
...e hoje enquadro a lembrança
de todas flores que tive
e por elas ser esquecido.

-Compreendo bem, meu amigo
todas as tuas agruras.
Vivo no mesmo dilema
porém o amor que me espora
não aflora campo a fora
como a florzita de açucena.

Eu também peregrinei
mendigando tanto amor,
esmolando as migalhas

sempre da mesma flor.

E hoje, com tua visita,
refolho o íntimo da alma
pra suportar o que não tive,
e as lutas de amor sincero
onde doei-me por inteiro
pra conquistar minha flor.

Somos iguais nesta sina…
...de bater asa e voar.
Tu voas de contra o vento
e eu voo no sentimento
na minha sina de amar.