N’OUTRO
TEMPO
Matheus Marchezan Bauer e Vitor
Lopes Ribeiro
N’outro
tempo fora estância
o que ficou por tapera
neste fundão de invernada...
Restara
um capão de mato
sem fazer sombra pra nada
e um moirão, apodrecido,
jogado à beira da aguada,
nos mostrando que as fronteiras
dessas estâncias, lindeiras,
são frágeis e delicadas!
A
cada cair de tarde
o passaredo emudece...
O
ocaso é o fio do novelo
da trama que o tempo tece.
Não
há ninguém por testigo
e destes fundões antigos
somente o sol não esquece!
Junto
do pasto nativo,
cresceram ervas daninhas,
pois tudo o que não se cuida
na vida já se definha.
Naquele
campo nasceram
sonhos que não floresceram
por não andarem na linha!
Perto
da sede, um retrato
do tempo paralisado
e o alicerce das casas,
ruindo aos ventos, calado!
A
mangueira só encerra
mistos de barro e de terra
e os recuerdos do passado!
N’outro
tempo fora estância...
Em
sua eterna altivez
De
ser campo e ser querência
Sem
se importar com talvez,
O
tempo fez seus tordilhos
Não
nasceram mais potrilhos
Semeando
a escassez.
Então
me digas, tapera,
Se
és curiosa
como eu sou...
Quais
os ventos que te habitam
Neste
amanhã que chegou?
Quais
respostas tu procuras
Como
a frutita madura
Que
nunca ninguém roubou...
Como
contar das manhãs
Bonitas
do nosso pago,
Sem
encilhas dos campeiros
No
mais silencioso estrago?
Como
contar das mangueiras
Sem
as formas madrugueiras,
Neste
sentir tão amargo...
...e
a hora do meio dia
Donde
descansa a peonada,
Depois
da boia simplita
Mas
que garante a pegada,
Como
que fica esta hora?
Por
certo é feito a espora
Que
nunca mais foi atada.
Hoje
voltei ao teu mundo
Pra
recorrer as quimeras,
Vim
encontrar o meu tempo
Vim
encontrar quem eu era,
Da
sede ao embarcador
Eu
compreendi minha dor
Pois
também virei tapera...
N’outro
tempo fora estância
o que ficou por tapera
nesses fundões de invernada!
Passaram
as primaveras
e eu que era estância mudei…
As
saudades que arrendei
recuperar quem me dera!
Aperto
a cincha e alço a perna
Ainda
há chão pra pisar,
Serei
de novo querência
Serás de novo o meu lar,
A
vida tem suas estradas
E
nunca é fim de jornada
Pra
quem tem pra onde voltar!
N’outro
tempo fui estância,
mas fui tapera também!!
Hoje
alicerço o meu mundo,
Com
a força que me mantém.
O
campo trouxe o relato
que o tempo ajuda de fato
quem sabe dizer amém!