Evangelho

Douglas Diehl Dias

 

O poeta tem na verve

sua própria eucaristia,

e em salmos de poesia

benze a hóstia que recebe.

Da nostalgia que bebe,

no cálice da escrita,

prova a palavra bendita

salmodiada no seu canto;

porque lê na folha em branco

o evangelho que acredita…

 

… Ali está a sentença

para a cisma que carrega

e as respostas que entrega

para as perguntas que pensa.

É a marca de nascença

que o tempo não apagou,

é a linha que lhe tocou

de um antigo poema;

é viver buscando o tema

que ainda não se cantou…

 

Nasce no verso que aflora,

morre no verso que finda…

e nessas idas e vindas

sente que a vida lhe atora!

Ao renascer nestas horas

entende – mais uma vez –

que seu brio e altivez

estão na rima que intenta,

pois sua alma se alimenta

do verso que nunca fez…

 

Mescla paisagens que adora

no barro dos sentimentos,

e com sonhos e lamentos

vai modelando sua obra…

O poeta tem auroras

com brumas de cerração,

que baixam do céu pro chão

até serem dissipadas

na poesia ensolarada

que lhe racha o coração!…

 

O pensamento, um relógio

trabalhando incansável,

no compasso irretocável

atrás do próximo horário…

Isso não é o calvário,

isso é o que tranquiliza;

porque escrever suaviza

as penas da solidão,

regulando a pulsação

na métrica que precisa.

 

Poeta é mesmo que andejo

cruzando de pago em pago,

saboreando o gosto amargo

do seu estranho desejo

de viver sempre no ensejo

de campear a novidade;

porque seu mundo, em verdade,

está na eterna mudança

de procurar nas andanças

um motivo pras saudades…

 

Seu caminho é inconstante

e nunca tem paradeiro…

Seu rumo ainda é o primeiro

que se fez itinerante…

E sempre vai mais distante

dos campos de sombra e flor,

que não faz parador

por ser fiel ao instinto,

percorrendo o labirinto

que há no seu interior…

 

Haverá sempre um espinho

ferindo a carne da ideia…

Haverá – muito – odisseias

nas sendas deste caminho,

onde se cruza sozinho

ouvindo seus desatinos

para envidar o destino

e enfrentar os escuros;

atrás do verso mais puro

que perdeu quando menino…

 

Poeta tem essa sina

e vive nesse dilema;

sempre buscando outro tema,

sempre campeando outra rima…

A estrada nunca termina

por mais que muito se ande,

e mesmo que se abrande

com algum verso bem feito,

nunca lhe calam no peito

as ânsias de ir adiante…

 

Mas chegará o momento

que haverá seu descanso,

ao sentir o sopro manso

na voz do último vento…

Terá, enfim, o alento

em ciclos de terra e luz

e a obra lhe fará jus

quando a voz do cantador,

cantar seus versos em flor

para enfeitar sua cruz!!!