Reflexões

José Luiz dos Santos

               

Quando me paro a pensar,

na vida e suas entrelinhas,

nos credos, nas ladainhas

e juras frente ao altar,

me pego a imaginar

as promessas não cumpridas,

as verdades esquecidas

nas ondas do fingimento;

a vaidade e o tormento,

das esperanças perdidas.

 

Como dizia Caetano,

no seu dom pajadoresco:

“Não há fi gura ou afresco

que defina o ser humano”.

Entra ano e passa ano,

e a injustiça prevalece.

Enquanto tudo acontece,

terminam-se os ideais:

quem bate não lembra mais,

quem apanha não esquece.

 

Neste mundo em que vivemos,

campeia a indiferença,

a ausência da presença,

por vezes não percebemos;

do irmão nos esquecemos,

correndo pela riqueza.

Por orgulho e avareza,

o homem fica insensível,

tornando até invisível

quem tem pouco pão na mesa.

 

Em nome da dualidade,

a mão cega da Justiça

expõe na mesma treliça,

a mentira e a verdade.

Aos olhos da sociedade,

a seleção natural.

Na luta do bem e o mal,

o inocente é que perece,

e o conceito favorece

um poder individual.

 

Talvez a pior pandemia

da nossa célula mater,

seja a falta de caráter,

por detrás da alegoria.

Transforma em mercadoria

o amor dos seus amores;

tudo em troca de favores

ou à custa de vantagem,

como rito de passagem,

sem dar valor aos valores.

 

Um inimigo sem rosto

colocou o mundo à prova;

a realidade comprova,

na tristeza e no desgosto.

Independente de posto,

a vida fica num fio

e aquilo que ninguém viu

deixa seu rastro de morte,

tornando de sul a norte,

um eterno desafio.

 

A realidade escancara

tudo aquilo que sentimos;

é hora de nos unirmos

e preparar a coivara.

Da cerca que nos separa,

vamos cortar os arames,

procurar outros ditames

de carinho e compreensão,

de bom senso e compaixão,

seguindo novos liames.

 

Assumindo a pequenez,

mais força, o homem adquire,

e não há quem lhe retire

o valor e a altivez.

Então é chegada a vez

de ajudar quem necessita;

sentir que a vida é bonita,

vale a pena ser vivida.

Na esperança devolvida,

um coração que palpita.

 

Cruzando essa tempestade

é preciso agradecer,

este novo renascer,

num grito de liberdade.

Despojado da vaidade,

unidos num só motivo;

o amor, por lenitivo

dos males, sem sobressalto,

podendo cantar bem alto

a alegria de estar vivo!!!