O Gritador

Rodrigo Canani Medeiros

               

Noite escura se aprofunda no rumo do Capão Alto,

o céu não regala estrelas nem descortina a minguante.

Cheiro de chifre queimado e um silêncio que perturba...

Nem o piar da coruja rompe torpor  dessas trevas,

somente as patas do pingo reverberam nas macegas.

 

uuuuuuuuuuuuuuuhhhhhhhhhhhh

 

Ao longe, um gemido lúgubre vai  se fazendo presente,

grito que brota distante, lá do  fundo do grotão...

O lamento exasperado vai se  tornando soturno,

e de vereda se aproxima qual  tormenta em mês de agosto!

Vem repontando a agonia de um  tenebroso clamor.

 

Oooooooooooooohhhhhhhhhhhhh

 

O vento arrepia o campo! É o brado  do Gritador

que assombra os capões de mato aqui do alto da serra.

Tropeiros e andarilhos, pescadores e mascates,

serranos de antigamente sabem bem destes bramidos,

que buscam libertação pra uma alma aprisionada

 

Será ele um guardião de um tesouro Jesuíta

oculto pelos Piñares desta imensa Baqueria?

Espírito solitário a chorar por Tiarayu,

a lastimar o massacre que vitimou sua gente

e esparramou gadarias pelos campos dos Ausentes.

 

“Diz” que no Capão do Tigre, um taura das Quatro Bocas

quis enfrentar o assombro e se sumiu deste mundo...

-Não retruque o Gritador, pois o duelo é iminente!

Se vencedor, o vivente fica com o ouro enterrado,

mas se perder o embate, se transmuta em sentinela!

 

Será que foi um paisano, seviciador de cavalos,

pela mãe amaldiçoado por ter lhe botado as garras?

Falam de um assassino que matou o próprio irmão...

E até de um degolador que vagueia atormentado

por gargantas maragatas que sua lâmina silenciou.

 

“Diz” que o neto do seu Cride retouçou a alma penada

no Passo da Porteira... O avejão se envaretou

e veio gritar tão de perto que até o chão estremeceu!

O rapaz ficou aluado, passou dois anos loqueando

e só com muita novena é que foi se endireitar.

 

- Não renegue o Gritador, se acaso topar com o tal

lhe alcance um naco de fumo para um último palheiro,

lhe oferte um trago de canha para molhar-lhe a palavra...

Acenda velas de sebo ao pé do maior pinheiro

e reze uma prece contrita pedindo pelo perdão.

 

Pra quem não crê em “las brujas”, como diria Dom Jaime,

talvez o berro sinistro seja da ave fantasma...

tão somente um urutau bombeando de olhos cerrados

ou talvez de um bugio macho a escorraçar forasteiros,

a demarcar território nas sesmarias serranas.

 

Eu respeito o Gritador! Reconheço sua angústia!

quem sentiu a geada fazer morada em seu peito,

quem bebeu agonia nas madrugadas de ausências,

quem errou demasiado e gritou sem ter resposta

sabe o preço da saudade, sabe a dor da solidão!