Décima Andeja
Moisés Silveira de Menezes
Sete centelhas sonoras,
medida velha de lei,
forjou respeitada grei
na florescência de outrora,
que o poeta, ave canora,
expressa o que a alma sente.
Não pode ser diferente
quando o verso é renascido
e o menestrel compelido
a viver dentro da mente.
Redondilhas em esgrima,
menores por conveniência,
Camões na sua excelência
cultuou a décima em rima.
A metáfora se anima
galopar na estrada antiga,
sabor de vento e cantiga,
nas consoantes da Espinela,
nobre, campeira e singela
para que a história prossiga.
De La Barca, magistral,
que andejou na mesma estância,
concedeu preponderância
no contexto universal.
Multiface transversal,
navegou dois oceanos
e aqui nos mares pampianos
se fez cativa e liberta.
Tornou-se um grito de alerta
dos vates americanos.
Clássica forma Espinela,
egéria de
Andaluzia,
deu ao cantor primazia,
repente em forma tão bela
que ao oponente flagela
buscar rima, um ofício,
do pajador, o munício,
que lhe deu novos alentos.
Fez história ao sul dos
ventos.
Poesia é puro artifício.
Depois de ausente na Europa,
ganhou força de condores,
se espraiou nos corredores,
onde o Minuano galopa.
Memória de ronda e tropa,
cantou do índio suas dores,
de todos, sonhos e amores,
acriolou-se na pampa,
aquarela em rude estampa,
sinuelo dos
cruzadores.
Toda América conhece
esse cantar primitivo,
que ressurgiu redivivo,
na poesia que enobrece.
O improviso e a prece
nas cores do continente,
sangas da mesma vertente,
no anseio identitário,
legítimo e libertário
entoar da nossa gente.
Lope de Vega deu nome,
por ser discípulo fiel,
em honra a Dom Espinel,
eterniza um sobrenome.
O tempo não o consome,
pois o canto de aporfia,
ausente a caligrafia,
é salmo de lança nua
de um povo em palavra crua,
construindo a biografia.