Cruz

Henrique Fernandes

               

Em quatro pontos cardeais,

onde o sul se enraíza na terra...

...o norte aponta pro céu,

tal um braço que se estende

pra tocar as mãos de Deus.

 

A trave na horizontal

- na estaca da pregação -,

implora um voo sem asas

por estar cravada ao chão.

 

...o silêncio guarda a saudade num

misticismo terreno de amplitude adversa

ao que chamamos de paz.

 

Adornada por macegas e espinhos de

caraguatás, as lembranças “campejanas

memorizam em seu abraço a própria

dor da partida…

 

...é nesta dor dolorida, que se findou uma

vida que o tempo deixou pra trás.

 

Bem no passo da restinga

onde tropas cruzam mansas

pelo arreador dos ponteiros,

e que amansam o passo dos pingos

ao passarem na sua fronte...

...acreditam que seu entalhe

feito de um resto de cerca

e que a intempérie do tempo

abriu-lhe vergas profundas...

...abriga as almas fecundas

que se “incrinam” nos ventos.

 

O mesmo abraço que abraça

um filho no nascimento,

vinga no mesmo resojo

o próprio desprendimento,

quando trocamos de plano

e quando enxergamos os enganos

de perene refazimento.

 

Não pendoa grãos, nem frutos...

...de galhos secos e frios.

Enternece nas iniciais

a fonte de tantos caudais

das águas de um mesmo rio...

...em cicatrizes que o mundo

tornam eternos segundos

memórias de quem partiu.

 

Foi arrastada ao pecado

sem que o pecado a ferisse.

Foi erguida e replantada

tendo na carne pregada

a inocência injustiçada,

da compaixão que persiste...

...em réquiens de condolência

que timbra a voz da querência

nos rosários de um canto triste.

 

Já fora sombra e pousada

brotando na sua doçura

pastagens de seiva pura

para o rumino do gado…

...também abrigou andejos

nas cruzadas chimarronas,

na guapa essência copada,

onde o sal adocicava

o suor de xergões e caronas.

 

Quando árvore, foi morada

pro sonho dos passarinhos,

que ali teciam seus ninhos

no ciclo das emplumadas.

 

Depois no alambre lindeiro,

deu alicerce fronteiro

demarcando em seus esteios

os limites das canhadas

pelas grotas dos potreiros.

 

Mas, no calvário, à compreendo,

o peso de seu mistério...

...nas leviandades ocultas

de previstas negações:

..."não O conheço"...

..."nunca O vi antes"...

..." não sigo Seu mandamento"...

Então o galo anunciava

profetizando a escritura

de profano sofrimento

nas três negações de Pedro.

 

Quem se criou “campo fora”

arrasta na faina bruta

o jugo duro da luta

nos tentos fortes do basto.

Carreteando dia por dia

resignos e nostalgias

que o laço leva de arrasto.

 

O que plantamos...

...o que colhemos.

E o que nos sobra em final...

São cicatrizes perenes

nas chagas da própria carne

deste ciclo material.

 

Te redesenho em minha face

quando deito, e quando levanto...

...também quando - a cavalo -

me "embodoco" num ventena

saciando a sede torena

pelos fundões destes campos.

 

Quando aperto o barbicacho,

para firmar o chapéu...

...sei dos limites que tenho

entre os estrivos e o céu.

 

Cruzo em cruz minha cruzada,

arrastando na invernada

uma silhueta de luz...

Carrego sobre as espáduas

a divindade emanada

que me toca a empreitada

até plantarem minha cruz.

 

Cada cruz traz o seu peso...

Cada cruz guarda o seu jeito...

Assim compreendo em verdade

que do batismo à unção

planto a cruz no coração

na terra fértil do peito.