Ode à Morte
Jeferson Valente
No rancho de chão batido,
Única herança do peão,
Velam o corpo:
A viúva, os filhos
E um casal de compadres.
………….
Na capela da vila,
Vasta procissão
No velório do coronel.
………….
Ao passo do velho ruano,
O vigário vai pensando
No trabalho que o espera...
Dois enterros.
Duas almas que ele conhecera
tão bem.
Dos adultos, casamentos.
Das crianças, batizados.
De um, ofertas pra igreja.
Para o outro, a bondade do
Senhor.
Duas vidas desiguais
Que se encontraram no fim.
Vai pensando...
E o campo à sua frente
Vai lentamente mudando...
Não mais o pampa imenso,
Mas largo rio de águas negras
Se
apresenta ao olhar.
Apertando a vista
Enxerga na escuridão
Um barco que lentamente
Vai de uma a outra margem...
……………..
Atravessando o Estige*
A cumprir a sua lida,
Caronte – o barqueiro –
Transporta outra alma
Pra o lado de lá.
Absorto em seu ofício
Sequer desvia o olhar
Ao passageiro assente
Na transição dos dois mundos.
A viagem faz-se longa
Na profusão de lembranças
Que inundam a mente
Do inerte passageiro.
Imagens de riso e pranto,
Que povoaram a existência
Deste, que da vida,
Está a se despedir.
As brumas envolvem o rosto
E as vestes do mortal.
Mas isto em nada altera
A atitude do barqueiro.
Não lhe cuidara a figura.
Não lhe importava a atitude
Daquele que era, ao certo,
A razão de sua lide,
O objeto de seu labor.
Transporta a essência – alma
–.
Devaneios de riquezas;
Angústias de pobreza
Em nada alteram sua labuta,
Não mudam o curso do barco.
A vida do transportado
Só a ele pertenceu.
Bem como a do anterior
Que já passou para a outra
margem,
E a daquele que espera,
Paciente, sua vez.
Arroubos de altivez
Perdidos no vão do tempo.
Agruras de desalento
Que se perderam para sempre.
Não importando a vida,
No momento do traslado,
Solene, o barqueiro abre
A sua mão para a paga:
Uma moeda apenas
É o preço da travessia.
……...
Um “buenas,
padre!”
O desperta da miragem
Que o arrebatara na estrada!
Lembra então seu compromisso:
Dois enterros.
Duas vidas desiguais
Que se encontraram na Morte.
* Na mitologia grega, o Estige era um rio na entrada do mundo subterrâneo.
Frequentemente, era descrito como o rio através do qual o barqueiro Caronte transportava a alma dos mortos para o Hades (mundo inferior). Como paga, o barqueiro deveria
receber um dracma (moeda grega), motivo pelo qual os gregos colocavam uma moeda
sobre os olhos dos mortos nos rituais funerários.