RAZÕES PRA EXALTAR UM CANTO
Gilberto
Trindade dos Anjos
O galo canta no pago,
evocando rebeldias…
E o seu canto é como açoite
tocando as trevas da noite,
chamando as barras do dia.
Soltando a voz “a la cria”
do seu cantar instintivo,
cumpre um ritual primitivo
e traz uma ordem pra gente…
Calçado nas suas esporas
este caudilho emplumado,
grita de peito empinado
que é hora de ir em frente.
O galo canta imponente,
virando lume que guia…
E a vida num tranco lento
pouco a pouco toma tento
pras asperezas do dia.
Vejo mais que melodias
neste canto que me alerta
e sem rodeios desperta
meus sonhos perto do fim...
Me
conduzindo de tiro
por ermos nunca pisados,
e grotões mal assombrados
que trago dentro de mim.
O galo canta aprumado,
e a madrugada se agita…
Na noite que se esmaece
o galo cantor parece
o próprio pampa que grita.
É uma herança bendita
que os ancestrais nos legaram
para guardar seus valores…
Pois quando canta no pago,
traz um oportuno recado
pras ansias do novo tempo,
que me chega pelo vento
se aninhando em minha mente:
Só vive em pé no presente
quem tem raiz no passado!
Neste canto abagualado
vejo a alma do meu povo,
campear um destino novo
marchando entre os macegais…
E escorada no seu grito
de comandante emplumado,
se plantar nos descampados
mesclando sangue aos trevais.
Faz lembrar velhos rituais
quando canta sem floreios,
e reacende os anseios
de uma pátria sem buçal
trançando os próprios caminhos
pra cinzelar sua essência…
E usando o áspero timbre
do seu canto como ponte,
levar pra além do horizonte
os marcos desta querência.
O galo canta atrevido,
e a noite parte calada…
Seu canto ecoa em meu peito
me arrancando contrafeito
dos braços que fiz morada.
E acordando a madrugada
que dorme junto das casas,
leva em seu bater de asas
os meus sonhos campo a fora…
Pois quando canta no pago
seu canto é lança de aço,
cortando tempo e espaço
pra sangrar o matiz da aurora.
O galo canta entonado,
tal qual a voz de um clarim…
E este bravo chamamento
dá armas pro pensamento
do peleador que há
em mim.
Quando o galo canta assim
nos xucros tempos atuais,
lembra cultos ancestrais
que revigoram a minha fé…
Pois vislumbro no seu canto
um bombeador do futuro,
gritando claro, no escuro:
Bota os teus sonhos de pé!