Restevas do Carovi
Rodrigo Canani Medeiros
Era uma tarde de chuva
num setembro de aguaceiro,
quando Venâncio Fogaça
pitava um palheiro grosso
mirando os longes da estrada,
e nas brumas da fumaça
viu se chegar um andejo,
destes, que andavam vagueando
após tombar Gumercindo,
restevas do Carovi.
Melenas negras, compridas,
lenço encarnado na espalda
e um olhar de mistério...
-Me llamo Santiago Saravia,
vengo en paz, para el trabajo,
se hay servicio en la tierra,
se hay potros para domar,
a mi me gusta lidiar!
A estampa de índio ventana,
atrevido, melenudo,
não agradou ao patrão,
mas já nasciam terneiros,
as cercas vinham estropiadas,
e só com mulher e filha
mais dois ou três mandaletes,
faltavam braços pra lida.
E então Venâncio Fogaça
justou o taura na estância.
Santiago se aquerenciava
e numa manhã de luz,
olhando por sobre o lombo
de um lobuno que tosava,
em meio às réstias de sol,
encontrou uns olhos verdes
de uma morena das casas
lhe negaceando da porta...
Parece que toda dor,
toda aspereza da guerra,
se esvaia neste instante.
O mundo já era mais belo,
e a estância emudeceu.
Mãos que empunharam espadas
estremeciam nas crinas,
una frontera obscura,
um sentimento confuso
pra um índio bruto de campo.
E a moça também tremeu.
A pele alva eriçada,
o peito arfando mais forte,
o coração descompassado.
As mãos segurando a trança
como a querer sofrenar
uma ânsia clandestina,
por hora, desconhecida.
Uma flor de pessegueiro
sobre a pedra do riacho,
um punhado de araçás
no peitoril da janela...
- As senhas do bem querer -
A fita que atava a trança
amarrada no lombilho,
bolo frito com canela
no escondido do galpão...
- Afagos correspondidos -
Numa noite mormacenta
com silêncios de inquietude,
os corações transbordavam.
Corpos ardentes, febris...
Uma janela se abre
desabrochando o desejo.
Duas almas em comunhão
com gemidos abafados...
E a face alva do amor
se aninhou candidamente
em un pecho maragato.
As rudes mãos peregrinas
trotearam suavemente
e desvendaram caminhos
entre dois cerros maduros
perfumados de açucena.
Dulzura desconocida
pra quem viveu entre amargos.
Assim seguiram ocultos
nos lajeados, nos pelegos,
nas eternas madrugadas.
E pelo atraso das regras
se revelou a magia
de um gineceu fecundado.
Na cabeça do estancieiro,
ódio, desonra, desgraça
e um desejo de vingança,
Mas o medo que sentia
do andejo oriental
lhe afrouxava a valentia
e lhe instigava o ardil.
O plano estava traçado!
Durante todo o verão
ninguém saiu da fazenda,
não mais às festas de igreja,
não mais aos tiros de laço,
nem missa nem carreiradas.
Portas cerradas pra todos.
Na boca da vizinhança
uma doença esquisita
chegara com o tal Saravia.
No dia do nascimento,
uma tocaia montada...
Dois sonidos dissonantes:
Um berro anunciou: – É macho!
Um tiro calou o rincão.
O corpo jaz insepulto
nas grotas da Josaphá,
a alma paira nos campos
buscando o cheiro da moça,
buscando o choro do filho.
Prás gentes da redondeza,
o uruguayo de mistérios
se foi, como se chegou.
Pro pai, a “honra” lavada,
o peso da covardia
a lhe corroer as entranhas
e a estampa do ventana
a lhe assombrar madrugadas.
Prá moça, uma desconfiança
e uma tristeza profunda
de flor que se fez espinho.
O luto entremeou na trança
e nunca mais foi embora.
Pro guri que se criou
herdeiro de estância grande,
nem Santiago nem Saravia,
no nome apenas Fogaça!
Mas no sangue... Ah no sangue!
No sangue ferve a paixão
e uma bravura incontida
que desconhece a razão.
Um instinto maragato
e um semblante oriental
com um olhar de mistério...
Melenas negras, compridas,
ao vento nas sesmarias,
campereando eternamente
nas coxilhas de São Chico!