O Fundo do Poço

Silvio Aymone Genro

 


O silêncio soluça

No fundo do poço...

Enquanto as roldanas

Cantam aos ventos!

Minh’alma também

Esconde o que sente

E, sorrindo, me mente,

Mas chora por dentro.

 

O balde que desce

Ao fundo do poço

Repete o caminho

Que antes já fiz...

Eu ia feliz

Transbordando carinho

E voltava sozinho

Coração vazio.

 

Caíram estrelas

No fundo do poço,

Que a noite, por gosto,

Ali derramou...

Meu balde voltou

Cheio de saudade

E gole a gole

A vida o bebeu.

 

A alma da gente

E o fundo poço

Guardam mistérios

E afogam segredos...

Da concha das mãos

Fugiu-me a ternura

Tal qual água pura

Por entre meus dedos.

 

No espelho d’água

Do fundo do poço

As rugas no rosto

Rabiscam meu fim...

Feito os escombros

De um poço de balde

Meus sonhos de moço

Ruíram em mim.

 

 

 

 

 

 

Calou-se o alegre

Cantar das roldanas

Que matava a sede

Nos velhos quintais...

Há tempos que peço

Um abraço... um beijo!

Mas meu poço dos desejos

Já não me atende mais.