Esteios

Mateus Neves da Fontoura e Zé Renato Daudt

 


Escora o peso do mundo,

Com ombros de imensidão...

Tesoura, caibro, oitão,

Telhado, quincha e morada...

Palanque onde a madrugada,

Feito uma bugra charrua,

Debruça o corpo de lua

Despida, em pele de prata,

Como a enfeitar serenatas

Pros olhos da estrela nua.

 

Esteio é sustentação

Nas lidas de ronda e tropa...

É o couro firme da bota

Pros papagaios da espora,

Onde a roseta sonora

Abriga o canto dos grilos...

Esteio é o loro e o estribo

Firmeza do homem campeiro

Que no garrão sul-brasileiro

É esteio que segue vivo.

 

Esteio é o amadrinhador

Pra poema e gineteada,

Pois tem a vida agarrada

Com pulsos de devoção

Entregando o coração

Sempre para o bem do outro

O amadrinhador traz um pouco

Da mesma alma da gente:

Harmonizando o que sente,

Livrando os golpes de um potro.

 

Esteio é paz e aconchego

Luzeiro até de um pagão

Que sem aguentar o tirão,

Pois nunca soube rezar,

Silente vai encontrar

O que nem bem conhecia...

Esteio é cura e magia,

Alívio de chaga e dor,

Pois quem procura o Senhor

Encontra a fé em poesia.

 

 

 

 

 

 

 

Esteio é rumo de estrada

Pra colo e beijo materno,

É pai que não foi eterno

Pela ausência que hoje chora...

Saudade que não se atora

No fio de tantos conselhos

Vindos na ponta do relho

Ou no calor do abraço.

Esteio é o que estreita os laços

Deixando os lados parelhos.

 

Esteio também é a Dalva

Na noite de lua nova

Escuridão que comprova

Que às vezes somos pequenos,

Pois basta cair o sereno

Pro campo virar um mundéu

E só quem conhece o céu

Mesmo estando sozinho

Sabe encontrar o caminho:

Basta sacar o chapéu.

 

Esteio é a voz do amanhã

Num rastro que é seguimento...

Rodeio de sentimento,

Tropilha em pelo esperança...

É o sinuelo pra criança,

Sendeiro para uma um bom trilho

É luz que redobra o brilho...

É a porta aberta das casas

E o sonho que ganha as asas

Com o timbre novo de um filho.

 

Esteio é o verso em que habito...

É a minha alma que sangra

No escarlate que abranda

O tinto destas saudades

De onde brotam verdades

Que estavam escondidas

E que na inconstância da vida

Na solidão me consolam...

Quando simplesmente afloram

Pra me trazerem guarida.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Esteio é charla de amigo

Nos mates de mano a mano

No ritual cotidiano

De compartir soledades.

Esteio em si é a verdade

No rancho do coração

Tesoura, caibro e oitão

De um universo fecundo

Que escora o peso do mundo

Com ombros de imensidão!