A Cor do Pago

Edson Spode

 


No linguajar do meu povo

De xucreza carregado

Aflora o nosso passado,

Forjado assim sem retovo,

Com gosto de mate novo

De golpe amargo de fato

E cheiro de campo e mato

Parido em meio à macega

Mas, na cor ele carrega,

A pelagem de um mulato.

 

Nas lidas da minha gente,

Tocadas de forma guapa,

Nenhuma ordem escapa

E o patrão é o presidente.

Já está no piá a semente

Que germina “ pro” serviço

Do serrano ao fronteiriço

Tudo é cumprido com zelo

E se a lida tiver pelo

Com certeza é de mestiço.

 

No saber desses sulinos,

De pai pra filho ajoujado

Passa o macete cancheado

Dos tauras, cueras mais finos

Que no atalho dos ensinos,

Num saber meio bastardo,

Aliviaram esse fardo

De quem não tem faculdade

E esse saber, na verdade,

Tem a cor de um índio pardo.

 

No cantar de meus patrícios

Xote, rancheira ou milonga

Toda essa pampa ressonga.

Por fartos nossos munícios

E já parte desses vícios

Que todo gaúcho figura,

Desde o berço à sepultura

Com notas bem no costado

E a voz do pampa sagrado

Tem a cor da noite escura.

 

 

 

 

 

 

 

No pelear desses gaudérios

De braço, adaga ou lança,

Tiram a morte pra dança

Num namoro sem mistérios

Que a fome dos cemitérios

Com os valentes se agrada.

Mas na última trompada

Um se leva por travesseiro

E se tem cor o salseiro,

Por certo é amorenada.

 

Na educação da gauchada

De reverência sincera,

Nenhum diploma acolhera

E nem formação doutorada,

A essa instrução que foi dada

Numa morada posteira

Pela indiada mui campeira

Com baldas de professor

E se a tarimba tem cor,

Creio que seja trigueira.

 

Nos costumes dessa indiada

Já por séculos cultuados

Todos nascem lambuzados

Desde a primeira palmada.

A nossa cria é desmamada

Sem cangalha ou tabuleta,

Mas segue mamando a teta

Das coisas de nosso chão.

E a lonca da tradição,

Tenho pra mim que é preta

 

Na família dos paisanos,

O mais sagrado reduto,

Está o esteio absoluto

De resistência aos profanos,

Porque no sangue, hermanos,

Pulsa mais que a filiação

E, em nossa formação

Como povo e como Estado,

Se a rigor é colorado,

Foi quase a cor de um tição.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Na poesia desses cueras

Sextilha, décima....oitava,

O Rio-Grandense se lava

Na sanga de outras eras,

Água clara das taperas

Manancial de arte sagrada,

Onde murmura a payada

Com jujos de curandeiro

E a cor do verso campeiro,

Sempre foi acrioulada.

 

Nas bailantas de meus pampas,

Lamparina e chão batido

Bailongo bueno, encardido

De indiada batendo guampas,

Enredados pelas trampas

Da morena lambancenta

Mas com cheiro que acalenta

Quartuda que nem capincho

E a pelagem do bochincho

Meu patrício...é fumacenta.

 

Na devoção do pampeano,

A crença que lhe governa,

Divina ordem fraterna

Temente ao Pai Soberano,

De um altar no Vaticano

A uma cruz no descampado,

O mesmo ritual sagrado

Nos cultos de minha gente,

Na fé branca e transparente

De lombo meio bronzeado.

 

Essa é uma parte da herança

Que os negros aqui deixaram

Ao Rio Grande acolheraram

Bem mais que golpes de lança

E se aquela antiga aliança

Comprou a sua vida fiado

Hoje todo gaúcho honrado,

Lhe deve, ao menos, respeito,

Porque se olhares com jeito,

É negro o pelo do Estado.