Tapejara.... Memória Ancestral Charrua

Luis César Soares

O futuro a deus pertence

E o passado é Tapejara

Sabe por onde cruzamos

É conhecedor dos atalhos e

Por isso nos peala sem piedade

Para ir roendo a dentes

As páginas da memória

Sem nos apartar do presente!

 

Essas velhas mangueiras,

Erguidas pelos caminhos

São mudas testemunhas

Que o destino é pechador!

A cada novo trompaço

Nos embreta, acorrenta

E por fim nos abandona

Trancados, inertes e cativos,

Para ficarmos maneados

Ruminando a mocidade!

 

Repara, a tarde vem caindo,

A manga d’água bate mansa

E espalha cheiro de terra!

São perfumes, aromas,

Uma ancestral invocação

Que traz histórias tantas,

Dessas que esparramamos,

Nas varandas do tempo,

Ao pé dos velhos fogões!

 

Como era lindo Patrício,

Atar meu velho par de puas,

Estrelas cadentes para riscar

O céu, a terra e o couro

Dos ventenas flor de caborteiros!

 

Muita coisa ficou para trás,

Tantos corredores, tantos potros,

Tantas estâncias, tantas chinas...

O mundo girou e nem vi,

Só ouvi... Ouvi tanta coisa e

Disseram muitas outras e

Quase nada foi desmentido...

 

“Um dia chegou de longe,

nunca se soube de donde...”

 

“...Um tal Maneco Rodrigues,

Um domador de mão cheia...”

 

“... ali na velha Estância da Cruz...

Vinha ficar por uns tempos

Para quebrar o corincho

Da bagualada gaviona...”

 

Levei nome! Levei fama!

Para uns somente andarilho,

Para outros, Tapejara!

Levei saudade negaceando ilhapa

Levei a vida atada nos tentos

Domando Rio Grande a fora

Nessa mania, uma sina que arrasto,

Um carma do meu sangue bugre

Meio mestiço de alma charrua!

 

As Estâncias, vem se finando,

Com elas, as domas e o viço,

Do passado quase tudo ruiu,

De resto uma penca de lembranças,

A montaria lá no fiador,

E aqui no rancho, solito,

Meu eterno parceiro, meu Pinho!

 

Pinho velho de guerra,

Meu alambrado de cordas,

O timbre e a estridência do aço,

A ressonância dos acordes,

Levando terno acalanto e

Carinho a ouvidos errantes,

Catando amores distantes!

 

Me fiz guaxo e andarilho assim

Renegando origens charruas

Entre o campo e os arreios,

Entre domas e o gado alçado!

Com flete sempre encilhado,

Sombreiro tapeado ao vento,

Poncho nos tentos, viola na garupa,

Um Tapejara dos caminhos,

Amadrinhando potro e payada!

 

O tempo dita o destino,

Que é verso por escrever,

É potro por domar

É campo por florescer;

É uma chama que incendeia

Para depois ir lentamente

Roendo nosso cerne e

Apagando a memória!

 

Por isso retornei

Para minha mãe terra

Que tem a cor do meu sangue

E o cheiro da minha alma,

Onde tenho o umbigo enterrado

Feito lança ancestral charrua!

Hoje sou ribeirinho

Das águas do Ligeiro5

Com rancho de pau a pique,

Fogo de chão e Santa Fé!

 

Aqui...

Meu pequeno mundo,

Minha velha aldeia

Neste chão que me viu nascer

E tanto me ouviu em pequeno,

Respeitou meus lamentos e

Minhas mudas lágrimas...

 

Voltei para minha terra

Pois do pó me forjei

E ao pó retornarei!

 

Sonhos?

São caprichos da mocidade,

Eu almejo a paz deste rancho

Com meu violão

Sempre à mão...

Minha fortuna está aqui

Queimando no braseiro e

Quando o coração palpita o

Mate amargo de saudade

É balsamo para solidão

Sacia a sede e acalma

Este velho Tapejara redomão!