O Rancho e o Tempo

Katia Cristina Bergamini Titao

Sob o céu sem fim das pampas,

onde o horizonte se perde nas coxilhas,

voltei ao rancho que um dia foi meu lar.

Mais que paredes e telhado,

era o retrato vivo do que um dia fui.

 

Ali onde o fogo manso, aquecia as noites frias,

E o vento sussurrava histórias pelas frestas da janela,

Enquanto o mate passava

de mão calejada para mão amiga,

procurei o calor das lembranças

os ecos das vozes e cantos

que outrora enchiam o silêncio.

 

Mas encontrei apenas sombras,

espaços vazios que um dia transbordaram vida,

e um silêncio mais cortante

que a lâmina da adaga.

 

O tilintar dos arreios no galpão,

o cheiro doce do couro recém-engraxado,

o mugido lento das vacas no potreiro ao entardecer…

ficaram rodando na minha memória,

como se pudessem

me devolver o que se perdeu.

 

O tempo, esse tropeiro incansável que não para,

levou consigo as cores do que amei.

O rancho que antes me abrigava,

agora me rejeita.

As árvores que antes me abraçavam

se curvam sob um céu estranho,

e o campo, meu velho parceiro,

veste-se de um tom que já não reconheço.

 

O que não daria para ouvir de novo

aqueles gritinhos de alegria na porteira,

ao me ver chegar da lida do campo…

ou sentir aquelas mãozinhas sujas de terra

que estampavam padrões de barro

debaixo da minha janela.

O rangido das portas ao abrir o galpão

e o riso dos companheiros

depois de um dia de trabalho,

compartilhando mais que mate e conversa,

partilhando vida.

 

Voltei para reencontrar o tempo,

mas o tempo seguiu sua tropa,

deixando para trás apenas marcas,

pó e saudade dentro do meu peito.

 

Mas não foi o tempo que me ruiu,

nem a solidão que me derrubou.

As fendas nasceram das minhas mãos.

Foi meu silêncio que fez o rancho estremecer.

 

Cada escolha deixou um vazio:

silêncios onde havia canto,

paredes frias onde havia calor,

e um coração que aprendeu a ser rancho,

mas sem ninguém pra morar.

 

Dói ver o que o tempo levou,

o que deixei escapar pelas frestas da vida.

Feridas abertas não pelo minuano,

mas pelo descuido de não viver quando era tempo.

 

Na solidão deste rancho antigo, me pergunto:

Quantos dias vivi

sem viver de fato?

Quantas manhãs deixei passar

sem olhar pro céu?

Quantas conversas calei

com medo de gastar palavras?

Quantos abraços não dei

acreditando que haveria tempo?

E quantas vezes deixei o fogo apagar…

sem perceber que era o calor da minha própria vida

que se perdia?

 

Hoje, quando o rancho geme

sob o peso da memória,

eu me vejo…como ele.

Bonito por fora,

mas silenciosamente

desabando por dentro.

 

Percebo que não foram só os erros

que pesaram sobre mim…

foram os caminhos que escolhi,

os portões que fechei,

os silêncios que cultivei,

e o adeus que jamais pude dar.

 

O passado não se move,

não se dobra ao meu querer.

Descobri, a duras penas,

que há portas que se fecham

para nunca mais abrir.

 

Não posso trazer de volta

quem se perdeu na estrada.

Não posso refazer os passos

que hoje são só poeira no vento.

Compreendi que o tempo leva,

as pessoas partem,

e as paredes racham.

 

E o que sobrou da tempestade?

Se estou de pé…

sobrou o recomeço.

Sobrou a força de quem descobriu como resistir,

e a lembrança de que o rancho

sempre esteve dentro de mim.

 

Aprendi a aceitar o que não volta,

a carregar no peito o que não se apaga

e no peso da perda, entendi:

Não é o abandono que me define,

é a coragem de continuar,

mesmo com os silêncios,

mesmo com as ausências.

 

E enquanto houver chão de pampa

e um coração disposto a resistir,

nenhum minuano vai me derrubar,

Este rancho…

não se entrega.

Sempre será meu lar.

 

E sob o mesmo céu sem fim das pampas,

onde o horizonte se perde nas coxilhas…

Eu sigo,

como velho rancho antigo,

cheio de rachaduras,

mas ainda de pé!