GLICÍNIA

Otávio Lisboa

Eu vi uma flor bonita,

tinha nome de senhora!

Abraçada em seus enredos,

pendurada em suas demoras…

Parece até que sorria,

e ao vento, se despedia

enquanto eu ia-me embora.

 

Bem postada à quem lhe cuida

(feito eu, também partindo),

se casa com a primavera

pra dormir sempre florindo!

E acorda com a sutileza,

da púrpura delicadeza

do seu “vestido” se abrindo.

 

Ainda sim, sobrando encantos,

pra enfeitar pátio e janela,

ainda que se perceba

a mão de Deus nessa tela…

O coração só ressona

quando me encontro com a dona

(que é bem mais linda que ela).

 

Não digo o nome da moça,

mas digo o nome da flor:

Glicínia! Que no batismo

ganhou pétalas de amor.

Quando cruzo aquela rua,

não sei bem qual é das duas

que me faz mais sonhador…

 

Ali, segredo é perfume,

- dos que ninguém descobriu! -

e mesmo assim permanece

cobrando quem o sentiu.

Me persegue e não revoga,

tanto é manso quanto afoga

tal um rebojo de rio!

 

Uma me lembra da outra,

indo do aroma ao caminho.

Uma sabe d’onde venho

a outra, que eu sou sozinho,

a flor veste as claridades

e a moça vive em saudade

do mundo dos meus carinhos.

 

Contei 7 - bons - domingos

juntando rimas no peito,

queria entregar pra moça

(entrelinhas dos trejeitos),

o poema mais bonito

que eu já fiz pro infinito

com cheiro de amor perfeito.

 

Não me faltavam momentos

que sem querer, lhe queria…

Pois até uma lembrança

faz a noite virar dia.

A vista que desconcerta,

é um encontro de poeta

com os olhos da poesia.

 

Fiz o último arremate

no verso do bem-querer,

minh’alma quase foi junto

antes mesmo de eu morrer!

A folha ao poema brinda,

e conta coisas pra linda

que eu nunca pude dizer…

 

Passei debaixo da porta

papel, rima e coração.

Glicínia, que viu a cena

abriu seu último botão!

A flor (de terra e nuances),

abençoou o romance

largando pétalas no chão.

 

Agora que conheço as duas

e fui aceito ao recinto,

tanto a moça quanto a flor

já sabem bem o que eu sinto!

E em mansas brisas de chuva,

uma tem jeito de uva

e a outra um beijo retinto.

 

Assim mesmo desenhei

a trajetória apaixonada,

se não tivesse visto a flor

sem nunca mais fazer nada.

E sonho que já despertou,

bem quando a flor me contou

que a moça era casada.

 

As rimas não existiram,

desejo é sol que s’esconde.

Troquei romances de poeta

pela calma de algum monge!

Moça e flor, à quem respeita:

pois algumas coisas são feitas

pra se admirar só de longe.