DIÁLOGO ENSIMESMADO ENTRE LAGO E RIO

Vinicius Nardi

“Que não se diga que não tentei!”

Rumino minhas fronteiras,

na quietude do meu leito

onde se banham as estrelas!

 

Quem afinal ele pensa que é?

Se fosse pra sair correndo

a gente tinha nascido em pé!

 

Vou é fingir que nem

Ouvi.  Eu sou força e

movimento,

mesmo que tenha quem não goste.

Se fosse pra ficar

parado a gente tinha é

nascido poste!

 

Lagos e rios!

Anseio

louco de olhar

pro outro

e se ver vazio.

 

Eu acolho.

Faço espelho da manhã

e aconchego do entardecer.

Já tu, vai levando tudo embora

sem nem ter tempo pra entender!

 

E tu? Que guardas tanto assim?

Essa tua calma é só fachada.

Debaixo do teu sossego

manso tem correnteza

represada!

 

Um guarda o

céu, o outro, o

tempo.

Ambos seguem

molhando o véu do

pensamento…

 

Eu passo,

sim. Dou passagem,

levo vida,

faço as margens se expandirem.

Sou risco, mas sou

partida.

 

E eu? Eu sou abrigo.

Sou o colo que não transborda,

sou palavra que cala o grito,

sou silêncio que também acorda.

 

Será que repousar é fuga?

Será que correr é confiança?

Quem carrega mais bravura:

aquele que para ou o que se lança?

 

Teu espelho é vaidade d’água parada!

Reflete o céu, mas não o sente.

Te falta chão, te falta

estrada…

 

Vive preso ao ontem, ausente do presente!”

 

Eu, não! Sou sulco, sou galope sem freio!

Faço a serra gritar, o vale

acordar, Tiro a lama da raiz,

arranco o seio da terra pra fazê-

la respirar!

 

E tu, que se gaba de tanto correr,

conhece o que molha? Ou só molha e vai?

Se és tanto, por que não sabes deter a

enxurrada que destrói o que atrai?

 

Sou cais pro pássaro, morada da lua,

sou o tempo que escuta, sou a pausa leve e crua.

Tu és apenas alarido de água dura

que esqueceu o gosto da ternura!”

 

BASTA!

 

Sou eu, a Terra, que vos guarda e vos nutre,

vos dei curso e contorno, calma e rompante.

Um é espelho, o outro é luta — mas escutem:

ambos bebem do mesmo instante.

 

Sem o lago, o rio esquece a contemplação.

Sem o rio, o lago apodrece em solidão.

São meus filhos, em rumor e calmaria:

um corre o tempo, o outro guarda o dia.

 

Por isso, sigam — juntos ou distantes —

ancorando seu próprio cais

somente saibam: todo abraço é terreno,

e toda briga… estéril demais.