A
PATACOADA DO VERGÍLIO
Rafael
Ferreira
Vergílio saltou bem cedo,
Antes de algum movimento,
O ar pairava bem lento…
E no galpão a fumaça
Suspirava em meia braça
Dum cerno de aroeira,
Quando a sombra sorrateira
Cruzou, qual vento que passa.
Deu de mão no que queria,
Buçal, maneia e
recado,
E se bandeou, passo largo,
Rumo ao sogueiro
tordilho,
A preceito, ligeirito,
Aperou, no más, o manso
E se foi, tal um remanso,
Cruzando nuns ocalito.
Ganhou a estrada na frente,
Perdeu o que ficou pra trás.
Saiu fugido, sem mais,
Fez pouco dos trinta ano,
De ser confiança, o tutano,
Que a patronagem dizia,
Que outro igual não nascia,
Bueno igual este paisano.
Madurou um trote duro
Na invernada da quadra,
Juntou uma potra gateada
E uma lobuna
corisca.
Se foi a perder de vista
Cortando cerro e canhada,
Com uma ânsia entalada
Em busca da sorte arisca.
Viajou quatorze légua,
E se parou estafado,
Frente ao rancho ataperado,
Bem na entrada da vila,
Uma lágrima tranquila,
Desceu em forma de dança,
Ritimada por
lembranças,
Que teve de sua família.
Mais pra frente, um pátio lindo,
Gramado e cheio de vida
Uma casinha sofrida,
Antiga, de taboa branca,
Postado junto a varanda,
Ali estava o paraíso
Estampado num sorriso,
Igual se fosse na infância.
Era a Mercedes, a viúva.
Ou dona Mêrce, no
más,
Com rugas, que o tempo faz,
Com mate doce e sequilho,
Com seu olhar tão tranquilo,
E a alma irradiante,
Dizendo: - passe pra diante!-
Pra o seu amor andarilho.
Vergílio tirou o chapéu,
Pediu permisso e abraço
E aquilo tal fosse
um laço
Maneando um sonho de oito,
Viu pulsar, de jeito afoito,
Dois corações mais velhitos,
Que muito andaram juntito
Pela volta dos dezoito.
E os dois pares de olhos
Se fecharam, mas que lindo,
Mesmo assim viram surgindo
Todo o passado vivido.
Nada, nada, esquecido.
Um segundo, a eternidade,
E as juras da mocidade
Então faziam sentido.
Que patacoada o Vergílio,
Fugir em busca do amor,
Mas o tempo é o senhor,
Amansador de destino,
Quem sabe tocou’le o
tino,
De largar tudo, por nada,
E ir campear sua amada,
Uma paixão de menino.
E o amor faz destas cozas
De enlaçar quem lhe procura,
De palpitar aventuras,
De desmanear ansiedades,
Quando se é de verdade
O amor não tem medida,
Se encontra ao longo da vida,
Independente de idade.