AO SENHOR DOS CAMINHOS
Osmar Ranzolin
Naco verde de
querência
Fincado à beira da estrada,
Que o vai-e-vem das tropeadas
Deu razão de permanência,
Mesclado na mesma essência
Que nem o tempo separa
E ao Rio Grande se compara
Pela excelsa trajetória,
Que o gaúcho em sua história
Quis chamar de “Tapejara”.
Do Passo Fundo lendário
- Gleba de origem tropeira -
Foi habitação primeira
Dos povos originários,
E o registro necessário
Da tua ancestralidade,
Prenuncia uma verdade
Neste solo consagrado,
Onde habitaram “Coroados”
Muito antes da cidade.
Depois vieram intrusos
A mesclar um outro sangue,
Entre tapes e caingangues,
E castelhanos e lusos,
Novas gentes, novos usos,
Novo tempo registrado,
E o amálgama formado
Em ciclo que se alterne
Vai forjar o mesmo cerne
Do gaúcho abarbarado.
Quantas mãos encanecidas
Pelo laço desdobrado,
Campeando rastro do gado
Nesta época perdida...
E as tropas na recorrida
Da estrada que se avista,
Testemunham a conquista
Das rotas de carreteiros,
E depois no rio Ligeiro
A causa federalista.
O labor intermitente
Da extração do pinheiro,
No Passo do Carreteiro
Vai atrair nova gente,
E a marcha insistente
Da expansão fundiária,
Vai levar a araucária
Neste tempo demudado,
Pra trazer no fio do arado,
Nova faina agropecuária.
De um mundo tão distante
Nas vagas de ocupação,
Em busca de terra e pão
Chegam levas de imigrantes,
E o progresso itinerante
Traz o morador primeiro:
Vem de Borges de Medeiros
O registro em gabinete,
A Antonio Santos Bonetes
Na escritura de posseiro.
Entre gringos e germanos
Daqueles da prosa mansa,
Vem os planos de mudança
Pra formar um centro urbano,
E vem também o africano
A cortar a gleba inteira,
Entre casas de madeira
Há quadras recém povoadas,
Pra quartear a nova estrada
E se tornar Sede Teixeira.
Outras levas de proscritos
Fazem rota de passagem
No recavem das viagens
Buscando teu chão bendito,
Que vai se elevar, “distrito”,
No progresso que não para,
- Novo nome que declara -
Essa marcha em desalinho
Se és Senhor dos Caminhos
De alcunha, “Tapejara”.
O crescimento é discreto
Mas anima a sociedade,
– “Tapejara é cidade,
Só nos falta um decreto!”
E logo surge o projeto
Aclamado em procissão,
Pra engajar o cidadão
Do voluntário ou conscrito,
A apoiar o plebiscito
Pela emancipação.
Novas casas, novas ruas,
Mais empregos, novos planos,
Crescimento ano a ano
E a migração se acentua,
Onde havia terra nua
Logo nasce a esperança,
E Tapejara já alcança
Outros ares de cidade,
Ao buscar modernidade
Pra o futuro das crianças.
Entre a soja e o milho
Que vicejam no teu chão,
Vai nascer exposição
Repleta de luz e brilho,
E se o sucesso é estribilho
De cada safra colhida,
Relembra a gente sofrida
Que te moldou a paisagem,
Com muita fé a coragem
Que são pilares da vida.
Do sucesso agropecuário
Que remonta a velha origem,
Novos tempos te dirigem
Aos caminhos literários,
E traduzem o corolário
Dessa excelsa biografia:
Mão talhada em valentia,
Mão campeira e analfabeta,
E hoje é a mão de cada poeta
Que nos Une em Poesia.
Pois mesmo a maior tristeza
Que enfrentamos no passado
Te deu ânimo dobrado
Pra cruzar a correnteza,
E não há sinal de grandeza
Que supere a distinção,
De ver teu povo em união
Na tragédia que se expande,
Pra resgatar o Rio Grande
Do meio da inundação.
Completos setenta anos
Deste registro de glórias
Tapejara guarda histórias
Como cabe aos veteranos,
E vendo o fator humano
Só me cabe uma certeza,
Que entre tanta beleza
Fortuna e diversidade,
A gente desta cidade
É tua maior riqueza.
Quando eu for trocar de lado
E alcançar a Imensidão
Vou levar no coração
A epopeia do passado,
Mas tangendo teu legado
Que é relíquia assim tão rara
Fica a força que me ampara
Na ronda da Divindade,
Pra vir matar a saudade
Nos campos de Tapejara.