TUDO O QUE HAVIA DE BUENO
Rodrigo Bauer
Um
homem vai pela estrada;
um outro
dorme na mira...
De
seu, há apenas o nada,
pois isso
ninguém lhe tira!
Um
tiro fura o silêncio, um homem cai do cavalo...
0 outro
prova a incerteza que nunca irá abandoná-lo!
Um
calafrio, uma angústia feita de culpa e aridez;
talvez
normais para o homem que mata a primeira vez!
Ninguém
estava por perto, só a terra por testemunha
e a
pólvora arrinconada embaixo de suas unhas...
Mas
algo havia mudado e, embora a ausência de provas,
dali por
diante seria um morto fora da cova!
0 ódio
havia invadido a sua alma tapera;
e quem
empresta a morada a ele, não recupera!
Depois
que usa o sujeito e sai da porta pra fora,
tudo o
que havia de bueno, o ódio carrega embora!
Malgrado
alguma suspeita, livrou-se inteiro, afinal...
Mas,
para alguns, a consciência é o seu maior tribunal!
E,
assim, no fundo dos campos, foi andejar por aí;
liberto
da lei dos homens, mas prisioneiro de si!
Pudesse
voltar no tempo, jamais faria outra vez...
Por
mais que ele merecesse, não justifica o que fez!
Quem
age durante a ira, se perde em meio à cegueira
e, num
segundo impensado, estraga uma vida inteira!
Avaliou
entregar-se, mas viu seu mundo pequeno;
Pois,
livre ou preso, perdera tudo o que havia de bueno!
Então
soltou-se no mundo, tentando ver se apagava
a marca
que, em sua alma, cada vez mais aumentava...
0 rosto
do desafeto vivia em seus devaneios...
Em
sonho, pelas picadas, quando atacava um rodeio!
A
bala ia e voltava, havia sangue nas mãos...
Ninguém
aguenta um remorso batendo no coração!
Enquanto
cevava o mate, quando encilhava o seu flete,
a cena se
repetia, e hoje só não se repete
porque
numa tarde morna, dessas que o pampa suspira,
acharam
ele enforcado num galho de guajuvira..
No
rosto, a morte estampada
cobrando
o preço da ira...
De seu, há apenas o nada,
pois isso ninguém lhe tira!