O DONO DE MIM
Carlos Omar Vilela Gomes e Bianca Bergmam
Partiu...
Se
foi embora ao romper da madrugada,
Não levou as malas,
nem se despediu.
Só deixou pra trás dois
ou três pertences,
Um sonhar ausente, um
lugar vazio.
Por legado
na sala deixou um retrato antigo.
sobre a cristaleira duas
chaves velhas
Que
não sei ao certo nem porque existem?!
Não servem pra nada
nessas horas mortas!
Não falam, não andam,
não consolam,
Não guardam memórias
e não abrem portas.
Deixou
um cusco com olhar perdido
A
mirar a porta esperando o dono.
Perdeu-se o dono por
esses caminhos,
Mas
ao pobre cusco não cabe entender,
Porque nessa
noite quando a morte veio,
Não sentiu seu
cheiro, ou não quis saber?!
Mas levou o dono...
O dono do cusco, o dono da casa,
O
dono da vida, o dono de mim.
Eu, que tudo sabia sobre seu passado,
Que tudo sabia sobre
seu presente,
Hoje me dou
conta que não sei de nada.
Pois sempre fui tudo
aquilo que ele era.
Eu sempre fui tudo
aquilo que ele quis que eu fosse.
Eu segui seus dias e
seus pensamentos,
Feito
quem se torna rastreador de sonhos,
Andejando
estradas que não foram suas,
Só pra
ter o gosto do que não é seu.
Mas me agradava
ser assim, confesso.
Eu gostava tanto de
seguir seus passos,
De
saber histórias, registrar memórias
Pra
depois lembrá-las pelas solidões.
Eu respirava seus
sorrisos de alegria
E eu chorava feito
ele toda vez
Que me contava dos amores
que partiam,
Deixando ausências e
saudades outra vez.
Se foi a mãe, se foi o pai,
se ia a vida...
Se foram
todos andejando novos trilhos;
Mas
quando o tempo, revelando as suas garras,
Levou
a amada e depois levou os filhos,
Suas
histórias se tomaram mais amargas,
Pois
navegava pelo mar dos esquecidos.
0 que fazia Deus no
céu que não olhava
E
não lembrava que ele ainda estava aqui?
Eternidade
era ambição de tantos tolos,
Ele
era sábio, só queria enfim partir...
Eu
não queria que meu dono fosse embora,
Pois
ele era a razão de eu existir...
Então
não sei o que será de mim agora,
A
sombra inerte de um olhar que nunca chora,
Qual
um fantasma, renegando meu porvir.
Quem
abre a porta velha é o vento,
Não
são minhas mãos...
Quem
tange a guitarra é o vento,
Não
são minhas mãos...
Meu
dono foi embora com o vento,
Sem
minhas mãos...
Eu
volto para mim e me dou conta,
Não
tenho mãos!
Nem
mãos cheias, nem mãos vazias.
Nem
mãos limpas, nem mãos sujas...
Não
tenho mãos!
Então
porque essa sensação de mãos atadas
No
canto mais escuro da gaveta
Enquanto
o tempo vai virando as ampulhetas
Assoviando
um tom menor de solidão?
Eu
não consigo alimentar o cusco
Eu
não consigo segurar as chaves
Talvez
com elas abriria as
portas
Que
me trariam
sua humanidade.
Agora entendo suas angústias
tantas,
Agora entendo seus desejos
todos
Porque aqui na escuridão
eterna,
Me sinto apenas só mais um dos tolos.
Cheio de sonhos... calados...
Pleno de estrelas...caídas...
Cheio de planos...sem
vida
Pleno de rumos...sem
fim.
Órfão de um pai esquecido,
Sem missa, sem inventário,
Sem mais histórias, enfim...
No fundo desta gaveta,
Meu destino, meu calvário...
Só mais um velho diário,
Já sem o dono de mim!