Angüera
Cândido Brasil

Era a “Terra de Ninguém
o pago largo nos vales,
a terra era sem males
e era de todos também,
um tempo que vai além,
pretérito de outra era,
envolto em sua quimera,
habitava o cafundó,
na região do Pirapó,
o índio triste, Angüera...

 

Filho nativo da gleba imaculada,
alma da
taba desde o corpo cunumí,
herança bugra da tribo arrinconada,
velha estirpe da etnia guarani.

 

Entendedor dos jujos e animais,

do alimento que a natureza encerra,

em seu sossego afastado dos demais,

parte do meio, porção andante da terra.

 

Mantenedor do território inviolado,
donde surgiu e vivia em abono,
legenda viva a cultivar um legado,
dono de tudo, onde nada tinha dono.

 

Pelo instinto que a tudo conhecia,
seguiu o tempo, suas mudanças teatinas,
observando no cambiar da geografia,
sobre o verde, a cor preta das batinas.

 

E o índio bravo ao ver seu mundo alterado,
fechou-se mais em melancolia sincera,
permanecendo taciturno, amoitado,
reconhecido como fantasma, Angüera.

 

Em sua tristeza o guarani resistia
a convivência com a doutrina cristã
e em cada mate de quietude que sorvia,
ele sentia a presença de Tupã.

 

Ouvia sinos ecoando na amplidão
em um chamado a guiar passos incertos,
seus olhos viam o marchar da procissão,
rumo à cruz de quatro braços abertos.

 

E o colosso erguido em barro e pedra,
da mesma cor da santa terra vermelha,
pôs no seu peito um sentimento que medra
e se expandiu no calor de uma centelha.

O índio taura carregado de mutismo,
junto aos padres converteu-se amistoso,
pela igreja recebeu o seu batismo
e Angüera foi chamado Generoso.

 

A conversão do Angüera irrompeu
luas e sóis que alumbraram sua testa
e o espírito do Generoso volveu
para alegria, música, dança e festa.

 

Desde então, prestativo e jovial,
o Generoso, com disposição grongueira
e alma cristã, espargiu seu cabedal
na formação da querência missioneira.

 

Sua energia aliada à coragem
serviu de guia aos padres em suas ações,
apontou rumos pelas trilhas da paisagem
na construção dos Sete Povos das Missões.

 

Tocou a vida, prazenteiro e venturoso,
sempre solícito ao chamado da missão,
até que velho, um dia, o Generoso,
chamou o jesuíta p'ra última confissão.

 

Seus olhos vivos acobertados de luz,
resplandeciam uma vida em prazimento,
na sua fronte recebeu o sinal da cruz
e o seu corpo, generoso sacramento.

 

Luzente aura de energia envolveu
o corpo índio que mantinha a altivez,
o Generoso, que cristão se converteu,
voltou a ser Angüera outra vez.

 

E nas Missões sua alma ainda retouça
pelos galpões, em sapateios e risadas,
com sopro leve, erguendo as saias das moças
ou sussurrando sua marca registrada:

 

Eu me chamo Generoso,

morador de Pirapó,

gosto de dançar com as moças

nos bailes, de paletó"