A Lenda do Capão da Gaita
Adão Quevedo
Dizem que é mal-assombrado
aquele capão de mato,
pois ali, Chico Mulato,
um gaiteiro afamado,
anoiteceu pendurado
com uma corda no pescoço,
era um macabro esboço
de um amor malsucedido
que levou o falecido
até o fundo do poço.
Quando conheceu a Bela,
que era meiga e que era doce,
o Chico pensou que fosse
dono do coração dela
e pintou uma aquarela
na ilusão que ele tinha...
Mas a Bela, coitadinha,
tinha cabeça de vento
e a flor do sentimento
trocou por erva daninha.
No dia do casamento,
Belinha fugiu com outro
e o Chico, já quase louco,
saiu sem rumo, ao relento,
sem tirar do pensamento
a Bela, sua paixão...
Ferido no coração,
de alma desencantada,
pegou solito a estrada
com uma corda na mão.
O seu cavalo alazão,
bom de rédeas, bem domado,
ficou perdido, encilhado,
com um par de rédeas no chão,
rondando o antigo capão
na beira do corredor...
Só um bilhete e uma flor
testemunharam o fato,
de que o Chico Mulato
se enforcou por amor.
A gaita, num galho torto,
pendurada na figueira,
sua fiel companheira
na vida e depois de morto,
lhe servindo de conforto,
presa nas duas alças,
como se fosse uma balsa
para transpor a existência,
num desencanto de ausência
depois da última valsa...
A noiva, esta jamais
alguém ouviu falar dela...
Dizem até que a Bela
bandeou-se para o Uruguai.
Nem mesmo seu velho pai,
nem sua mãe, desolada,
sabem o rumo da estrada
que a própria filha escolheu...
Contam que se perdeu
depois de contrabandeada.
Isto tudo aconteceu
num tempo quase esquecido...
Foi antes de eu ter nascido
que o gaiteiro morreu,
só a lenda sobreviveu.
Sextas-feiras, à noitinha,
lá na velha estradinha
beirando o capão de mato,
sem ter as mãos do mulato...
Uma gaita toca sozinha!