A Lágrima

Caine Garcia

Eu sou o sal da partida
E o doce do reencontro,
Garoa que molha o verde
Pra jujar um mate novo.

Sou açude a romper taipa,
Molhando o vidro do olhar...
Eu sou o mar fora do leito
Se o coração quer chorar!

Eu caio do rosto abastado
Que tem fama e sobrenome,
Mas inundo diariamente
A face de quem tem fome!

Eu sou manancial da fé
E o pântano da heresia,
Verso encharcando os olhos
Pra banhar-se em poesia!

Eu sou a lágrima da dor,
Gotas terrenas de oceanos...
Sou o choro dos que sangram
Perdidos nos desenganos!

Eu sou a lágrima do amor,
Um oceano de humanidade...
Eu sou o choro da vitória
Dos que vivem na verdade!

Eu selo o silêncio e o medo
Daqueles que não têm voz,
E invado peito e garganta
Pra desatar os seus nós!

Eu liberto o clamor contido
Daqueles que ousam gritar...
Solto as amarras do espírito
Dos que insistem em lutar!

Eu não me furto ao valente,
Choro discreto, sem alarde...
Derramo forte os lamentos
De insensatos e covardes
!

Eu sou gota que nas retinas
Cria arco-íris de imensidão,
Sou orvalho choramingando
Entre a razão e a emoção!

Eu sou lágrima reincidente
Mar revolto do culpado,
Provocando maré cheia
Para afogar seus pecados!

Eu sou uma lágrima serena,
Mar seguro pra o inocente,
Que mergulha sem temer
As tempestades à sua frente!

Eu sou tristeza e alegria,
Eu sou alívio e sofrimento...
Sou o bálsamo dos justos
E o
fel do arrependimento!

Eu sou a água cristalina
Que vem da cacimba d’alma!
Sou tormenta e desatino
E o
remanso que acalma...

Eu singro as rugas do velho
E a tez macia da criança,
Regando o real e o sonho
Batizo o fim e a esperança!

Estive no olhar de Jesus,
Brotei no rosto de Maria...
Desaguei o perdão de Deus
Pra renascer dia após dia!

Eu sou a lágrima inclemente
Em quem não estende a mão,
Naqueles que a própria vida
Naufragou na escuridão!

Eu sou a lágrima decente
Que agradece a própria cruz,
Aquela que honra o Homem
Que vive em busca de luz!