QUANDO
O POETA CHOROU
Autor: Caine Teixeira Garcia
Quando o
poeta chorou
A dor
feriu, mortal como bala!
Puseram-se
sonhos na mala
Que o
destino guardou.
Havia um
grito “prendido”
Um olhar
mais que sofrido
E voz
nenhuma na fala...
Recrudeceram
outonos nas folhas
Amareladas
- em tez papel...
E a
geada - sob o chapéu
Denunciava
a conta dos dias
Na tarca
inclemente dos anos...
Tempos
fartos de desenganos
Olhar
num poço... e imenso breu...
Havia um
furor de tudo – e de nada
Atormentando
o silêncio
Quando o
próprio pensamento
Vagava,
sem rumo certo...
O vento,
de cinamomos e mólios
Sangrou
tristeza dos olhos
E
“benzeu” de salmoura o lenço!
Escancaram-se
todas as portas
Quando
impiedosa, a dor se achegou...
E o
pobre rancho “desmoronou”
Prenhe
de ausências e agruras...
Plantou-se
um ar de tapera,
Morreu
em flor, a primavera
Quando o
poeta chorou!
Ah...quando
o poeta chorou,
Encharcou
original e rascunho...
E a pena
– apartada de mãos e sonhos
Naufragou
num mar de angústias
E tantos
versos – já maduros
Morreram
em si, prematuros
Num
ocaso sem testemunhos...
Abandonados
no frio da estante,
- em
meio ao pó das prateleiras
Ficaram
Jaymes, Aurelianos, Ferreiras,
Veríssimos,
Cardosos, Rillos e Coronéis...
Entre
outras tantas relíquias...
Que prá
o poeta, eram estrelas guias
Para
singrar mundo e fronteiras...
Sim...
quando o poeta chorou
A noite
chorou bem mais...
Do
escuro – de várzeas e juncais
Surgiram
lamentos de campo!
E um
lacrimejar compulsivo – em sereno
Molhando
os cascos do tempo
Que
galopa sem voltar jamais...
Até a
lua, dama tão cheia de si
- Mesmo
que em quarto minguante
Também
chorou neste instante
Amadrinhada
pelas estrelas...
E
afogou-se – plena e amiúde
Rompendo
a taipa do açude
Que
nunca assim, chorou antes...
Alguns
dizem que aos poetas
Lhe
valem muito suas penas...
Que são
elas, vertentes de temas
E de
inigualável inspiração!
Mas
muitas vezes, com certeza
A dor se
faz tão intensa,
Que não
se presta a poemas...
Abriu-se
um estreito de corredores
Para o
que, enfim, não vingou...
Na vida
e nos lábios, um amargor
Sem o
sabor de um mate bueno...
Viu-se
“amigos” gargalhando
- Em
mediocridade renascendo
Quando o
poeta chorou...
Até o
sol quis nascer mais tarde...
E ainda
assim, permeando nuvens!
Luzia
igual a um vaga-lume
Meio
sombra... “quando em vez”, meio luz...
Talvez,
ele também chorasse,
E por
isso, tão pouco brilhasse
Denunciando
seus queixumes...
Quando o
poeta chorou,
Jurou
não mais ser poesia...
Pois,
para o que ele sentia
Já não
havia, enfim, salvação...
Nem o
próprio tempo cura
Se uma
alma assim – em amargura
Prá
vida, é querência vazia!
Sequer
ousou lamber feridas!
Por
sabê-las fatais, somente sangrou...
O maior
veneno é o amor
Quando
deixa de ser antídoto...
O
coração bem soube partir,
Somente
com sede de ir
Quando o
poeta chorou...
O
universo perdeu a graça
E quase
tudo desbotou...
A pampa
perdeu a cor
E o seu
olhar mais sensitivo...
E dizem
que uma coisa é certa:
Nunca
mais, onde cruzou o poeta
Alguma
flor desabrochou!
Quando o
poeta chorou,
A morte
foi mais que velada!
A dor
pegou rumo na estrada
E a pena
não ressuscitou...
A
poesia, com fome, coitada,
Sucumbiu
na folha calada
Quando o
poeta chorou...