APOLOGIA DE CAMPO AOS OLHOS TERNOS DA
ALMA
Henrique Fernandes
Vou além do que vejo, e muito
além do que alcanço.
Mas complacente emolduro uma
apologia de campo
Por onde busco razões de me
fazer refletir.
Com essa singularidade,
enfreno em boa lua
as mais matreiras saudades, que gavionam e retoçam
nas profundezas da alma e ao que me toca sentir.
Assim se adoçam da boca...
...pois quando ato o bocal,
já faço a conta dos dias
pelo ciclo do luar, a hora certa e exata para poder
enfrenar.
Minha potrada
de anseios...!
Só eu sei de cada uma... não se entregam pelo pêlo...
...“ay “ uma lobuna mansinha, que já no
primeiro galope
me mostrou todos seus dotes e não se pôs “veiaquear”...
Já a tostada rabicana, mansarrona de buçal, se prendeu
sentar na cola quando juntei as argolas que tive até que
manear.
Lá adiante...
Vi a tropa dos recuerdos passar lenta pela estrada...
...tempo antigo, onde os
sonhos, eram mais que uma esperança
e os relicários da alma, guardavam ternas lembranças
arrinconadas no peito.
E das tantas e tantas voltas
que o destino matreiraço
Virou o fio do próprio aço...
...e meu
mundo troco de ponta
nas caravoltas que as rondas
me extraviaram pelo espaço.
E dei pouso pras guitarras
entre um verso e uma copla.
Aninhei no meu colo as
migrações doloridas de saudade e solidão...
E o meu silêncio empedrado
ficou a olhar-me calado
num sentimento de pena, que aos olhos de um poema
se apagou na escuridão.
Ninguém me disse o atalho,
Eu que tive que campear...
O campo aponta o caminho
Mas só quem traz olhos mansos
Podem por certo enxergar.
E me vou sem muita pressa...
...me estrivo
bem na coragem,
E firmo as esporas no contra
forte das botas
que os cabrestilhos de couro foram curtindo com o tempo.
Há... o
tempo...!
Este que curte e que cura,
e que amansa as ansiedades
e adoça as amarguras.
É só mais uma cruzada...
...logo estarei no passo -lá donde o rio se adelgaça-
E picaneio
sem pena este que trago na rédea.
Pois assim chego ligeiro, sem
a volta das enchentes
das velhas tropas de maio, quando um outono chuvoso
nos prolongava na estrada.
Eu até perdi as contas das
tropas que já tropeei,
e das estradas que cruzei, cortando várzea e canhada,
em banhados e coxilhas e quantas foram às tropilhas
que minhas garras sentei.
Tempo de mais para quem, se
encontra na lucidez
de não poder ver outra vez uma tropa em disparada.
Tempo de mais para quem, já
não pode sentir o cheiro
da carona e do baixeiro e do suor da cavalhada.
Mas é pouco ou quase nada,
este tempo que atropela.
Quem facilita nem sente o
árduo peso da terra
se escorar sobre as espáduas.
-qual um pala avestruzeiro- que desbotou junto aos anos
esboçando em seu aspecto sua data de batismo.
Na condolente figura,
plasmado neste ritual,
um “criolo” coloreia numa
neblina gostosa
que faz os olhos chorar.
Finjo que é da fumaça, este
orvalho que meus olhos
umedecem as retinas e que às vezes por ser tanta
se derrama pela face com jeito de água de mar.
Até a sombra é pesada nestes
serões da memória.
Talvez pela orfandade de
tapera e de descaso,
que os galhos de um cinamomo ainda insiste copar.
Talhado em quatro pedaços, me
designo neste meio
onde perpasso as esferas que delimitam meu plano.
Misto recuerdo
e saudade...
...hora chegada e partida!
A tenra “monologia”
de uma charla fogoneira,
enquadra minhas raízes que diretrizam
meu ser.
Eu vivo
tropas e domas...
...campeio
rumos e sonhos.
Transpiro
ares de outrora por olfatear o passado.
Sim!
Sou destes
que os de agora insistem chamar de... ANTIGO...!
Mas enquanto
estas lembranças,
estiverem apresilhadas nas minhas doces quimeras.
Eu seguirei
de a cavalo, altivo e bem entonado
nos
manuscritos que o tempo timbrou pra os filhos da terra.