NO VAZIO QUE SILENCIA AS ALMAS
Joseti
Gomes Soares
Os olhos da madrugada vêem
bem mais
do que eu supunha pensar...
Nem a lua, nem as estrelas,
nem a luz dos pirilampos
são necessários pra ela...
A madrugada é mistério!
É um misto de calma e medo
no vazio que silencia as almas
inquietas, nas noites de solidão...
Tomo um mate e me perco
em pensamentos...
A água chiando num conversar
sem resposta...
O fogo pedindo a lenha!
Pra continuar vivendo,
pra não silenciar comigo!
Eu já não sinto as brasas
e me consolo com as cinzas...
E a madrugada me olhando...
Sabendo tudo de mim!
Não deixa
eu ficar solito,
não deixa eu esquecer quem sou.
Se ao menos
me desse trégua
Numa noite apenas!
Eu montava no meu pingo,
dava rédeas à "suerte"
e me bandeava daqui!
O cusco,
talvez, também
perdido em lembranças...
Nem percebe que me acorda
quando resmunga aos meus pés..
Aproveito e encerro o mate.
Matear e enfrentar solito
o olhar da noite escura,
não é pra qualquer vivente.
Precisa ter pouco sangue!
Eu tenho sangue demais!
Tenho campo demais
nas patas do meu cavalo!
Tenho as botas lanhadas
de suportar os pranchaços,
das muitas peleias brabas
das quais saí sempre vtvo!
Trago nas mãos o retrato
que o meu passado revela...
Sempre fui peão das estradas..
Nunca firmei morada
depois de um dia de lida.
Não nasci pra botar soga
na minha alma de sonhos...
Chego cedo, acerto o serviço,
faço tudo no preceito
não deixo nada pra trás...
Só peço assim no mais,
um cantito para o pouso,
pra ruminar pensamentos
tomando uns mates amargos..
Então eu saio de novo
antes do dia raiar!
Sou filho de castelhano
com uma gaúcha morena...
Prenda criada em galpões.
criada da "moça-sinhá"...
Caiu nos braços do "hombre”..
Foi uma noite de amor!
Mas foi de encanto somente...
Quem tem mais de duas pátrias
não vê porteira por diante!
Cresci guaxo pelos campos...
Não me contaram a verdade,
dizem que a tal fatalidade
foi quem levou minha mãe!
Por certo não suportando
viver sem o seu paisano...
Preferiu partir pra sempre,
a ter que criar sozinha
um piazito manhoso...
Me fiz homem no lombo do meu cavalo!
Nunca levei um pealo nestas histórias de amor!
Ninguém me botou cabresto!
Ninguém me espera na porta,
já com o mate cevado
num ranchito enfumaçado...
Só tenho asas e sonhos
que não encontram lugar!
Mas. quem
precisa de amor?
Se todo o final de dia,
tem a mesma companhia,
em cada estância que esteja?
É quando o céu escurece,
que a madrugada aparece
consumindo sem pudor,
qualquer ensaio de amor
que os meus olhos atraem...
Esta é a minha sina
de andejo sem morada!
me encontro cruzando estradas
que o destino padrinho
me reservou quando piá!
me perco à luz das auroras...
Sou mais um amante dos
sonhos,
que se enredou para sempre
nos braços da "Madrugada"!