NA ECURIDÃO DE UM OLHAR
Maximiliano Alves de Morais
Quando a negra Juvência
deu-lhe a luz em tarde fria
não sabiam que o coitado
luz jamais avistaria.
Nunca arredara das casas
criara-se junto ao fogão,
levava as marcas da sina,
preto em pele e em visão.
Tinha em seus sonhos escuros
o sinuelo de domar;
Contava estrelas na noite
embora sem enxergar.
Nasceu o sonho bizarro
ao escutara peonada
e os domadores da estância
garganteando patacoadas.
E na estância é sempre assim.
domam, alambram, cuidam galpão,
mas pra um negrinho cego
não encontravam função.
Mas um sonho não tem regra,
não tem forma, não tem cor
e só o que ele enxergava
era o de ser domador...
Quem não vê afina ouvido
e o som alivia as penas!
O encanto do preto cego
era o cantar das chilenas...
Caiu na lida de campo
que a peonada andava escassa
e foi defendendo a bóia
montando a mansa picaça.
Dali em diante... bem!
Dali em diante a coisa mudou!
E quem enxergava via
que o negrito se criou.
Num aparte de rodeio
Era sempre uma façanha,
saia abanando o pala
e esporeando na picanha!
Carrapicho nos arreios.
basta que nunca caiu.
Só não estendia a corda
porque Deus não permitiu!
Mas quando apertou bocal
num potro zaino tapado
todos tiveram a impressão
que o negro havia enxergado!
Saiu surrando alternado,
caixão pro lado da anca.
Se tinha o olhar escuro,
agora a alma era branca!
Depois do zaino um lobuno,
depois a baia e um tostado,
mas foi com um mouro bulido
que o negro ficou afamado.
O pingo da sua rédea
era um pecado de bueno!
Todos tigres em rodeio!
Todos de andar sereno!
Parecia que ao cavalo
ele pudesse enxergar,
quando saia no lombo
dava gosto em apreciar.
Foi amadrlnhando
o negro
que o capataz, sem querer,
viu lágrima cristalina,
dos olhos foscos verter.
Algo estranho acontecia
dizem que cego não chora!
Mas o negro domador
chorava ao firmar esporas!
Porque um sonho não tem
regra,
não tem forma, não tem cor,
e só o que ele enxergava
era o de ser domador....
Pra quem não vê, o mundo é
preto!
Que estranha afirmação!
Será que somente os olhos
são as portas do coração?
Será que a ausência de imagem
traduzida pelo olhar
não pode ser compensada
pela arte de sonhar?
Se assim fosse,
o negrito da Juvência
não seria o domador
mais falado da querência!
Se assim fosse,
a vida era só visão,
mas pra o bem da própria vida
temos alma e coração!