JOÃO CASEIRO
Eudes
Maria pereira da Silva
A
barra do dia já o encontra mateando solito...
O
fogo de chão já foi avivado muitas vezes...
E
muitas vezes ele lhe serviu de farol
alumiando
pensamentos, que agora quer esquecer!
Todos
se foram...
Alguns,
rebenqueados por sonhos
que o calor
do braseiro
não
conseguiu segurar;
outros,
querendo fugir do buçal
de algum cambicho,
palanquearam-se
noutras plagas!
Os
filhos do Patrão foram prá cidade,
ainda
piás,
e lá
viraram doutores,
desses
bem educados, da fala mansa,
que de
quando em quando
aparecem,
mas
nunca
falaram em se arrinconar
naquele
canto de mundo...
Do
Patrão e de Dona Moça
só
restaram os retratos,
amarelados
pelo tempo,
pendurados
em lugar de honra
na sala
da casa onde viveram
e foram
felizes.
O pai-de-fogo de angico
vai largando,
devagarito,
brasas
avermelhadas que, ao caírem,
se retorcem
e vem dar laçaços
nos recuerdos deste qüera,
reavivando
os sonhos,
que há
muito mermaram,
e ficaram
esquecidos em algum canto da vida.
Apesar
da carapinha já branca,
o velho
João Caseiro vem guapeando
inverno a
inverno, há quase cem anos,
na sua
sina de peão caseiro.
Os
campos foram arrendados,
os
cavalos ficaram velhos,
e
morreram...
Somente
a velha mangueira,
qual
fantasma de outros tempos,
permanece
ali,
como ele,
a esperar
por tropeiros e tropas
que nunca
mais chegarão!
- “O mate já está lavado
mas a
prosa vai ser boa...
-
Vira o mate, João,
que hoje
eu vim sem pressa!”
...Quem
diria! Juca Domador,
o velho
amansador de potros,
“Ginete
do Destino”,
assim
diziam na querência!
-
Como veio parar
nesta já
quase tapera?
A
prosa cresceu com o dia,
e a vida
de João Caseiro
foi sendo
revivida,
no tranquito, passo a passo,
como
tropa cansada,
cruzando
corredores do pampa...
E
enquanto a prosa corria solta,
a
peonada, de outros tempos,
ia chegando,
um a um,
e
sentando na roda de mate.
O
tempo foi passando e,
quando a
noite chegou,
João
Caseiro não mateava solito!
Todos
os amigos,
que ele
imaginava perdidos pela morte,
ali
estavam...
A boieira espiava pela fresta do galpão,
derramando
um facho de felicidade
sobre os
olhos baços
e a face
carcomida
do velho
caseiro.
O
som de uma milonga,
que chora
ao longe,
avisa
que, no tempo certo,
os que
são amigos se encontram...
A
peonada, há certa hora,
despede-se,
prometendo
a João Caseiro
um breve
reencontro.
De
relancina,
uma luz
branca,
dessas
que cegam, invade o galpão
e uma mão
invisível
reponta
João Caseiro
até o
velho catre,
tão velho
quanto ele,
e ali,
seu corpo judiado
adormece
feliz...
pra nunca
mais acordar!