Vergonha
Autor: Matheus Costa
Declamador: Érico Rodrigo Padilha
Amadrinhador: Alcione Padilha
Quem te assume, pobre moça
renegada deste mundo?
Escondida n’algum fundo,
entre o ego e a ganância.
...Tua genuína importância
tombou ao esquecimento...
E meu verso é teu lamento,
tua voz e tua verdade.
- Vergonha é sobrar vaidade
quando há falta de argumento.
Vivendo à sombra da culpa
ao júri eterno do alheio;
Neste tempo, agora cheio
de mentirosas palavras,
me envergonha quem te lavra
sem olhar o que carrega...
...Sem notar que anda, às
cegas,
no descaminho do bem.
- Vergonha é julgar alguém
pelos conceitos que prega.
Estás rondando os errantes
mas nenhum te reconhece.
E aquele que te merece,
talvez relute o sentido
de pouco ter aprendido
com o peso desta cruz.
...Mas o círio que conduz
e germina tua semente,
há de clarear, novamente,
os homens pobres de luz.
Eu que, num dia, confesso:
quis ter tanto e ter “de um tudo”
- Pensamento tão miúdo,
capaz de tornar-me só… -
Vi a vida, sem ter dó,
vindo cobrar-me a valhia
da covarde valentia
de perder toda humildade
pra alimentar a vontade
daquilo que não devia.
Daí, revisando as horas
(essas que se passa à toa)
comuns à qualquer pessoa
da mais diversa intenção.
Fui compreendendo a razão
da vergonha permanente
que deve existir na gente;
Afinal, por vezes, penso
que caráter e bom senso
nos definem diferentes.
Destino e outras vivências
sagradas para o que anda,
são o norte que comanda
todo rumo em desvario.
E os dias, anos à fio…
...são ressábios,
em verdade,
à terrunha liberdade
de todo aquele que sonha,
mas teima sentir vergonha
de quando sente saudade.
Mesquinhas farpas alheias
extraviadas “sabe d’onde”
lugarejo em que se esconde
a fraqueza do que fere.
...O que - matreiro - prefere
ser o cruzador primeiro
deste ciclo passageiro...
Até que o mundo lhe ponha
num lugar onde a vergonha
faça dele um prisioneiro.
Quem te assume, pobre moça
renegada deste tempo?
Se toda escassez de exemplos
de bondade e de justiça,
somente o contrário atiça
para aqueles que virão.
...Desencontro a gratidão
nas entranhas deste escuro...
- Vergonha é não ser tão puro
quanto o próprio coração.
És confidente aos antigos
- os que
tem restos de outrora –
Tão incomuns aos de agora
e aos caminhos desparelhos.
Estás viva nos espelhos
dos ranchos, como em vigília...
...como parte da mobília,
à prezar pelo bom grado
e pelo pendão sagrado
que há no cerne da família.
Vergonha tem sono leve
e desperta – à qualquer hora –
Quanto mais ela demora,
mais tamanho, enfim, terá.
É um sopro do “Deus-dará”
pra bem de toda consciência...
...Fazendo com experiência,
o que alguém jamais fará.
Compará-la, ainda é pouco
pra definir sua valia.
Vergonha é luz que nos guia
contra o conforto de um trono.
É o espinho em abandono
que, mesmo temendo a dor,
despe as pétalas da flor
antes dos ventos do outono.
E aquele que te guardou
no “pra sempre” da memória,
recorda, contigo, histórias
e com isso, ainda sonha.
Não quer que nada componha
um final sobre a tua sina...
Pois, na hora em que
terminas,
resta, o povo, sem vergonha.
Quem te assume, pobre moça,
senão os de bom instinto?
Os que sentem como eu sinto
o peso que tens na talha...
Se o tempo nos embaralha
e a vergonha assume a culpa,
a idade não é desculpa
por uma atitude falha!
Vergonha... Teu simples nome,
com tão recheadas entranhas.
- Estás viva no que ganha
mas – sob um justo momento -
abre mão de todo trento,
pois, reconhece teu crivo...
E, vencer é um erro vivo,
se não há merecimento!
Quem te assume, pobre moça?
... - Quisera,
todo cristão!
Que teu rancho – o coração –
seja sempre este somente.
Vergonha é sumo paciente
servido à sede da alma,
pra – gole a gole – com calma
curar o que há de imperfeito,
sem deixar marcas no peito
nem cicatrizes nas palmas!
Repito a rima insistente,
como terminal verdade.
- Estou livre da vaidade
quando preso na poesia.
O que mais precisaria
neste mundo de peçonhas?
Se meu verso, ainda sonha,
livrando os rumos à esmo...
...e, apenas de ser o mesmo,
é que não tenho vergonha!