De Lázaros e Fariseus
Autor: Carlos Roberto Han
Declamadora: Liliana Cardoso
Amadrinhador: Jean Carlo Godoy
Andando pela rua, eu não os
vejo.
Só enxergo a tela do celular.
Melhor, eu finjo que não
percebo.
E cuido para não tropeçar.
Caídos na calçada, vários
corpos.
Seres semicobertos que não se
mexem.
Estarão vivos, estarão
mortos?
Não me importo.
Não quero ver. Não é problema
meu.
Não vejo, não ouço, não gosto, não sinto.
Olhos, ouvidos, paladar e
tato me protegem.
Mas o quinto sentido, o
olfato, me trai e eu os percebo.
Farejo um cheiro nauseabundo.
Um humano apodrecendo,
moribundo.
Lázaro, a quem não falta
pedaço, mas lhe falta humanidade.
Não a dele, mas a nossa
humanidade. Se é que a temos.
Um sentimento, então, me
assalta.
Não é compaixão, é
repugnância, é raiva.
É repugnância a seres humanos
fedidos.
Mas, também tenho repugnância
a seres humanos
que não fedem, nem cheiram.
Seres que não cheiram o fedor
do abandono
e da solidão de seus iguais.
Também sinto raiva. Raiva de
mim mesmo.
Raiva de ser conivente.
Raiva de não me abaixar para
um gesto de carinho.
Raiva de ser mesquinho e de
não gritar, protestar.
Raiva de não exigir uma
solução.
E, assim absorto, ouço uma
voz empoderada.
Uma voz nababescamente empoderada.
Uma voz que me diz.
“Não te aflijas, não te
culpes, a culpa é deles”.
Eles não querem trabalhar.
Eles merecem estar aí. Eles
querem estar aí.
Eles, de certa forma, são
felizes.
Não têm que cumprir horário,
não têm chefe ou patrão.
Não precisam pagar impostos.
Eles preferem viver assim.
Assim?
Viver?
Felizes?
Ali perto, passou uma madame com seu cachorro.
Cachorro de banho tomado. De
pelo aparado.
Penteado e perfumado.
E o cão cheiroso se dirige
aos mendigos fedidos.
Cheira-os, sem nojo.
E aroma-os com seu perfume de
pet shop.
Um dos que ali jaziam acorda.
Exibe um sorriso fedorento.
Ou um fedor sorridente.
O cão abana seu rabo e lhe
faz festa.
Mas a distinta madame o recrimina:
“Fifi, sai daí. Não vai te sujar”.
Puxa-o pela coleira e segue
andando.
E, ante tantas evidências,
a gente ainda teima em dizer que pertencemos à espécie
mais evoluída.
Sei que alguém haverá de
dizer: “Ah, mas isto é Brasil!”.
Eu digo não!
Isso acontece em Porto Alegre
e em São Paulo.
Aqui em Blumenau.
Mas também acontece em Nova
Iorque, em Bangladesh,
em Paris, em outros lugares.
Em qualquer lugar do planeta.
E quando Marte for colonizado
vai acontecer lá também.
Em todos os lugares do mundo
há um cheiro de abandono e solidão.
Não são seres humanos que desistiram.
São seres humanos que foram
desistidos.