Aquerenciada

Autor: Pedro Darci de Oliveira

Declamador: José Rodrigues

Amadrinhador: Marlon Teixeira

Cavalgou por muitas luas...

Esta gaita debochada.

Fez no pago sua morada

Quando aqui calçou garrão.

Rondando um fogo de chão

Repontou muitas auroras

Tu és a ave canora

Na alma xucra do peão.

 

Ninguém te apertou mais forte,

Com carinho mais campeiro,

Que o pajador missioneiro

Contraponteando com a lua.

A própria cruz de Lorena

Brilhou em noite de festa

Como um lunar fulgurante

Na fronte de Tiarajú.

 

Oráculo do Rio Grande

Na comunhão dos andejos;

Harmonizou os solfejos

Do cantor nas madrugadas,

Que, rondando a noite longa;

Num semblante fronteiriço,

Forneceu arma e municio

pro bochincho da ramada.

 

Foi mais tarde ginetear,

Nas mãos de Pedro Lourenço...

Onde o encardido do lenço

Protegia o coração.

Se abria muito pachola

Nas asas de uma vaneira,

Juntando serra e fronteira

No mapa de uma canção.

 

Um urutau distrai noite

Que a madrugada chegou,

Quando mareja meus olhos

Na saudade que ficou.

 

Ouço as águas do arroio

Quando abres a garganta...

As furnas da salamanca...

Angüeras, e Boi-ta-tás.

Sempre fostes querendona

E um “comercio” vira festa...

- Que importa se a “penca” presta

Se puder te ouvir cantar?

 

É lindo ver tuas gaitadas

Nas pencas lá do bolicho;

Nem sequer os “deixa disso”

Ou gritos de “já se vieram”

Desconcentram teu sonido

Encostadinho do ouvido

Dos ancestrais dos gaudérios

 

Aqueceste a noite longa,

Sobre o carnal do meu poncho,

Escaramuça e se prancha

No antebraço da mão.

Foste meu altar de juras

Testemunhando promessas,

Romanceado meio às pressas

No silêncio de um galpão.

 

São somente oito botões

Os baixos que tu precisas,

Quando a manopla desliza

Buscando compasso e tom;

Lindo é ver quando trovejas

Num confronto de gargantas.

Quem amadrinha os que cantam

Faz por instinto ou por dom.

 

Já perdeste a procedência...

Pra continuar missioneira.

A cúmplice, companheira!

Da minha querência flor.

O teu lirismo “Jesuíta”

Fez-se lema do meu povo;

Para reencarnar, de novo,

Na alma do pajador.