Tributo à Memória de um Carreteiro
Luis
César Soares
...José Alves da Silveira...
O tabelião timbrou e deu fé!
Mas os irmãos e os amigos,
unânimes,
acharam por bem contestar.
O batizaram “Dédé”...
Enquanto o carijó ensaiava
os primeiros acordes do dia,
longe, num leito de carreta,
ia o piá manhoso choramingando
no cabresto do destino...
O choro, aos poucos,
foi se perdendo pelo pó da estrada
enquanto o tempo tratava de mandar
chapéu de palha e enxada...
Era a doma da vida,
era um trotear miúdo perante
os olhos de navalha do pai...
A cada palmo do mundo que
descobria,
brotava de suas entranhas uma semente
de amor pelas coisas simples da vida...
A rabiça* do arado e a terra
revolta...
O campo e o lombo dos petiços...
As sangas e as canhadas...
Nesse andejar pelos pagos,
um tal Acelino Soares, abriu
as porteiras da estância...
Se fez homem comendo batatas assadas no borralho
e guampas de coalhada...
Dormindo entre balaios e
quartas* de farinha...
Engrossando a voz aos gritos
de:
“...Olha a canga Facero!
Bamo Mimoso...!
Já pra tráis Pitoco!...”
Do velho vinha a ordem:
“...Dédé, depois da Canhada Funda,
segue pelo rastro da estrada velha
até chegar no atacado do Corrêa,
dali até Porto Alegre não dá dois dias...”
Uma lida de gastar cambotas,
sóis e guiadas,
encontrando tropas e caixeiros...
Presenciando enchentes e
o bufar das sangas caborteiras que,
a custo, afrouxavam o lombo e davam vau...
Nas noites geladas se aquecia
co’as mesmas
brasas que tisnavam panelas recheadas de charque,
que assim como ele, eram curtidos de sol, e sal.
O tempo veio mostrar que o
velho patrão
era um visionário que, nas longas tragadas,
mesclava idéias e fumaça...
“...Dédé, olha pra esse arremedo de estrada,
não tarda o tal do caminhão
vai passar aqui e picar as invernadas...
Nossas carretas vão morrer
ali no borralho da tafona...
Farinha tá
mermando...”
Era a verdade dura e absoluta
na voz da experiência,
Uma sabedoria que os “Novos”
desconhecem
Quando tem nos olhos a teimosia
que vence a razão...
Comprou carreta e invernada,
ergueu rancho, varanda e galpão...
O suor irrigou sementes matizando
os campos...
Na cozinha de chão batido a mesa
posta era simples
mas, saciava a fome das bocas que,
ora brincavam pelo terreiro, ora povoavam roçados ...
A profecia se cumpria... As
carretas uma a uma
eram engolidas pelas bocas do progresso...
Sem saída, embretado,
o carreteiro seguiu a procissão do povo...
Cerrou em definitivo a porteira
do rancho,
Pegou o rumo dos corredores e
foi viver na cidade.
A vida perdia o sentido nos bretes da Vila...
Os sentidos se negavam a um mundo
de motores,
numa realidade sem berro de bois,
sem choramingo de carreta e bufar de sangas...
Restavam somente lamentos e
dores...
O passado era um eco distante...
Aos poucos, a catarata inundava
os olhos que,
marejados, não enxergavam a cor dos dias...
Mal pôde ouvir quando
disseram:
“...Repouso seu Dédé!...” ...Alias,
desconhecia o verbo “repousar”...
E a penumbra encobriu a vida
pra quem tanto viu o sol raiar,
pra quem não aceitava os caminhões,
nem os “autos” e tão pouco a tal evolução...
O homem rude, talhado em
pau-ferro,
sentia as maneias apertarem o coração...
As mãos calejadas que,
outrora,
ampararam “regeiras” e “guiadas”,
passavam a tatear o rosto macio dos netos, e a eles,
contava causos e histórias, proezas e carreteadas...
Dédé viajava no rastro das lembranças,
mergulhando na sanga do
tempo,
na busca daquele:
“...Olha a canga Facero!
Vira a cabeça Mimoso...!”
Hoje, as carretas dormem nos
museus...
Os arados enfeitam jardins...
Bois carreiros descansam nos
ganchos dos açougues...
As gulosas loteadoras fatiam
invernadas...
As tafonas
viraram ruínas...
Morreram os bisavôs
visionários!
Morreu o homem que,
contrariado, cerrou os olhos!
Mas permanece viva a história
e a memória dos nossos ancestrais!
* Rabiça do Arado: Cabo do
arado por onde é empurrado.
* Quarta: antiga medida.
In memorian: José Alves da Silveira (Dédé)
Acelino Peixoto
Soares