No rastro da terra...
Alberto Sales e Joseti Gomes
“- O tempo tá firme!
Amanhã, antes do galo cantá,
pegamo o rumo da
roça...
Não podemo mais esperá...”
O dia acordou sorrindo
iluminando gotas de orvalho...
O perfume das flores do campo,
inspirando pássaros em cio,
na magia de mais um dia de sol...
Semana passada, a terra era
um banhado,
não fosse a caída do solo, bem a contento,
atrasava o plantio...
O movimento de chapéus de
palha
e guampas de bois,
atende ao chamado da terra...
São braços firmes, são mãos conduzindo
com força os arados, abrindo sulcos,
rasgando o chão...
Enquanto as narinas se enchem
de cheiros dos matos, revoltos,
que se entregam sem resistências
depois das esperas,
a natureza oferece o ventre maduro
pra gestação das sementes...
E a terra embriaga e alimenta
esses homens irmãos que,
mergulham na maciez desses sulcos...
Não sentem o peso dos pés,
que levam
por diante o frescor dos veios desse rincão...
Ah!!!
O cheiro da terra, saciando esses homens...
que secos da sede dessas lidas
conversam alto, com timbres de compositor
ressoando melodias, entregando suas almas,
compondo um misto de euforia e amor...
Nas casas, as mulheres de
lenços na cabeça
passam café em sacos costurados à mão...
Sovam massas que incham
para alimentar os fornos de bocas abertas...
Os fornos ruminam pães e
biscoitos
para calar os ruídos das entranhas
dos homens e guris que, sentados
à sombra de seus chapelões de palha,
vão matando a fome da plantação...
E neste intervalo entre
saciar a fome de terra
e saciar a fome sobre a terra, o povo alemão
vai lembrando dos antepassados que,
um dia, deixaram do outro lado do oceano
suas casas e suas gentes...
Vieram em busca das muitas
promessas
de terras, animais e sementes...
Aqui, foram transformando
esse sonho
de ganhar a América e, com suas próprias mãos
foram moldando o chão, abrindo picadas
e miscigenando costumes...
Erguendo ferrarias, moinhos e
escolas...
Nasciam as vilas às margens
do rio
que os viu aportar...
Os sonhos que outrora vieram
embalados
no rastro das águas, agora ganham vida
e forma no rastro da terra...
São dialetos que brotam junto
às sementes...
São instrumentos, são partes
desse ritual...
E junto a eles, homens e
animais,
a ferramenta que os une: o arado...
Parceiro dos bois, puxado e guiado
pela união fraterna dos dois...
- parecem saber que todos são
um -
Se uns sentem nos lombos a
aspereza da lida,
os outros, que trabalham com solavancos, sentem
em cada soco, as mãos timbradas pela marca
da honra, na insistente briga pela vida.
O homem que se traduz em
terra,
se entrega como quem gera uma criança,
transformando o negrume do avesso do chão,
que vai receber o tapete verde
de uma nova esperança...
É o braço no arado que o
homem sustenta...
É o soco da terra que ela
representa...
É a vida chegando pra um novo
começo,
é a fibra de ser muito mais do que ter...
É acreditar no chão como
norte de vida
e dela, ganhar tudo o que bem merecer...
No repertório dos dias que
passam,
registros de bem querença afagam a alma.
O “êra
boi” conforta a linguagem da lida
daqueles que não açoitam parceiros,
mas dão um “frasta boi”
renovando a partida,
agraciando com leivas de bocas abertas
à reverenciar as bênçãos recebidas...
São filhos do campo, esses
homens,
que partem bem cedo... que levam
nas mãos,
e escondido dentro dos chapelões de palha,
os segredos das tantas gerações dos tempos de antes...
São eles que mantem viva a
certeza de cada milagre
que a terra oferece aos seus eleitos,
filhos dos filhos de muitos imigrantes!