De Rastros e Retalhos
Jeferson Valente
Lento se estende o caminho
Na alongada viagem...
Paisagens se descortinam,
Encadeando realidades.
Como se infinda fora a
trilha;
Como se infindo fora o mundo;
Como se infinda fora a
vida...
Segue dolente o viajante
Ansioso pela chegada.
Seus olhos inebriados
Pela agonia da espera,
Não vislumbram horizontes.
Não sente aromas perdidos
Nem a carícia do vento.
Não ouve os brados da terra.
Absorto na viagem
Não usufrui seus encantos.
Torna-se escravo da tropa,
Sequer lembrada partida...
Senda de areias e matas,
Planuras e serranias.
Tambores de onde os cascos
Fazem subir a cadência
Pra cantoria do gado.
O andarilho invisível
Sopra notas alongadas
Por entre aqueles que
andam...
Virou o tempo!
E o vento calou a sua flauta.
O respeitoso silêncio
Preludiou a chegada
Da noite, em seu negro
poncho.
Vivas almas andarilhas
Baquearam, precavidas
Pela natureza estática
A denunciar chuvarada.
A abóbada celeste
Chora sentida
Grossas gotas sobre a terra.
A poeira da estrada
Transforma-se em barro.
A mata fechada
Modifica e multiplica seus
sons.
O pranto do firmamento
Faz crescer o rio sereno
Que se transforma em muralha.
Não se encontra mais o passo.
O caudal que serpenteia
Interpõe-se aos vagalhões
Do gado-mar que avançava.
Ante o semblante impassível
Do falquejado tropeiro,
Quase tocando sua face
Chora a aba do chapéu...
A rudeza da figura
Esconde alma serena.
Os percalços do caminho
São apenas mais um passo
Em direção ao destino.
Assim, o gado mugindo
Levou sementes povoeiras
Penduradas nas cangalhas.
A esmo jogadas e semeadas
Pelos grotões das lonjuras.
Transpondo areias e matas,
Planuras e serranias,
Foram as tropas de gado
Sinuelo
Pras tropas de homens,
Que forjaram uma raça
Temprada nas intempéries.
Raça que em meio à campanha
Da América do Sul,
Com o fio de seda dos rastros
De tantos cascos em compasso,
Foi costurando ao Brasil
O retalho do Rio Grande.
Retalho aberto em campos
Sombreado pelos pinhais
Pontilhado rumo ao norte
Pelos fogões dos birivas.