Das Saudades Encardidas
Rodrigo Canani Medeiros
Quando um guri de campo,
aportava na cidade
pras lides do alfabeto,
chegava mui desconfiado
neste mundo diferente.
Apartado do petiço,
do arvoredo e do arroio,
se mostrava contrariado,
mas de olhos bem atentos,
como coruja do mato,
já que naquele povoeiro
era tudo muito grande...
Por certo, sentia medo,
mas mantinha seu entono,
como convém a um gaúcho.
Depois ia soltando as rédeas,
esboçando algum sorriso
pros olhos da professora,
trocando algum cumprimento
com os colegas de aula,
chegando meio de lado
nas rodinhas do recreio
e arrodeando a vizinhança,
com um semblante de sorro.
Logo andava aquerenciado
pelo pátio do colégio,
pelos terrenos baldios
e campinhos de futebol.
Clandestino nos quintais
de ameixas e bergamotas,
lidava com passarinhos,
carrinhos de rolamento,
arinho em varão de arame,
pandorga, taco, pião,
bilboquê, vaca parada
e trator de carretel.
Mas no jogo de bolita
é que encontrava seu chão,
prá exercitar as mercâncias
que aprendera nos galpões.
-Troco três olho de gato
por esta caramelinho!
-“Cambeio”
minha jogadeira,
mas quero cinco cascudas,
e este meu bolitão
vale umas quatro leiteiras.
-O boco fica prá mim,
e não vale carretão!
Na iminência da coiêta
topava o “provalecido”,
qual um terneiro zebu,
e por mostrar a coragem
que trouxera lá de fora,
passava a ser respeitado
pela piazada da vila.
Ao cabo de poucas luas,
era um monarca nas ruas,
andando de pés no chão
e mãos sovadas na terra,
de tanto dar cavalete.
Nesta viagem de lembranças
revejo a minha jornada,
lamento meus desenganos
e os encantos que perdi.
Meus olhos tornam-se fontes
vertendo longe de mim...
Já não existem triângulos
nas vielas empoeiradas,
mas o tal guri de campo,
que um dia foi prá cidade,
habita o fundo da alma
de quem viveu este tempo.
Peço limpis ao destino
prá descartar os espinhos
que adquiri no caminho.
Peço meça pra memória
pra perceber minha essência
e ver que valeu a pena.
Peço mudis para a vida,
prá voltar naquele tempo,
entrar prá dentro da roda,
encardir meus dedos alvos
e dar uma esteca na saudade
que me aperta o coração!