O SAL DOS OLHOS

Candido Brasil

 

Um vento matreiro assovia nas frestas,

fazendo serestas no galpão campeiro

e um trasfogueiro de calor intenso

exala incenso da flor do braseiro.

 

Num sepo planchado um velho mateia,

co’a idéia cheia de tempo passado

e bem ao seu lado o cusco lhe olha

e a saudade molha seu rosto judiado.

 

O gosto de sal na língua e garganta

aos poucos lhe planta nostalgia bagual,

roendo o carnal, arrepiando a pele,

do olho que expele tristeza caudal. 

 

O olhar retraído demonstra cansaço

e em cada traço que é percorrido

o sal diluído se transforma em marca

do tempo na tarca do rosto sofrido.

 

Seus olhos luzeiros de paz e paciência

traduzem vivência de tempos inteiros,

revelam tinteiros de nuances findas, d

as idas e vindas de sóis passageiros.

 

A luz da emoção de dores cativas,  

em memórias vivas junto ao coração 

no seu chimarrão se aquece e perdura

na terna quentura da palma da mão 

 

O amargo verdejo do mate sorvido

se faz mais sentido a cada traquejo,

revela desejo da idade avançada

na água salgada que brota do beijo.

 

O beijo salgado e doce do mate

provoca um embate no velho marcado

por vinco tatuado na face já gasta

que o futuro afasta do tempo passado.

 

Da busca constante por melhores dias

bebe nostalgias do tempo distante, 

seu calmo semblante procura entender 

a razão do viver pra seguir adiante.

 

Vê cenas pintadas na tela do olhar

que fazem cismar as penas guardadas,

repigmentadas na luz que descansa

em cada lembrança já emolduradas.

 

Imagens vividas que a íris reflete

em lombo de flete, rodeios, recorridas,

as marchas batidas na lonca do pampa

e a xucra estampa no palco das lidas.

 

Pó de terras vermelhas em xucros recantos,

paz de campos santos e pingos de esguelha

que trocam orelhas em trotes macios,

por matos e rios de margens parelhas.

 

Têm cores anelas do sol posto ao céu,

transpassando véus de nuvens sinuelas,

tingindo aquarelas em manhãs sadias 

e tardes de dias que bordam estrelas.

 

A luz da retina se fixa num ponto,

em contraponto à memória teatina,

que de relancina lhe trás ao presente

o lume consciente do que a vida ensina.

 

Tudo que viveu permanece vivo,

no olhar altivo que umedeceu

o sal que verteu certeza deixou,

tudo que plantou foi o que colheu.   

 

Na noite escura que avança silente

o velho pressente o fim da procura,

a luz que perdura mostra em refolhos

que o sal dos seus olhos é apenas doçura.

 

Vê, então, por fim, que como o seu mate,

doce amargo embate, no peito fortim... 

o sal faz enfim, com que ele compreenda

que a vida se emenda além do seu fim.