CONVERSA
Joseti Gomes
No mate da cuia
grande,
Cevado sempre a
capricho,
Eu bebo dedos de
prosa
Pelos balcões dos bolichos.
Escuto causos e
versos
Que o meu pai
rabiscava
Nas tardes dos
aguaceiros
Que sempre nos
encharcava.
Foste tu, meu velho pai,
Que escreveste poesia
Com palavras que eu
negava
E muitas vezes nem
lia.
Foste tu, meu velho pai,
Que construíste
paredes
Para guardar os teus
sonhos
Nos campos da minha
sede.
Nos sonhos, te vejo
às voltas
Tentando voltar pra casa
Feito pássaro caído
Batendo em vão suas
asas.
Lembro teu corpo, no
leito,
Cansado dessa jornada
E sinto o fio de uma
vida
Romper-se na
madrugada.
As nuvens brancas se
alojam
Junto às janelas do
olhar,
São cortinas que
impedem
Meus olhos, de te
enxergar.
Hoje, busco nas lembranças
o que de mim eu roubei,
Eu fui dono da
verdade
Que sequer acreditei.
Hoje, eu entendo de versos
E escrevo com tua
rima
Porque abri os meus
olhos
Cansados de olhar
"de cima".
Meu velho, eu perdi a
pressa.
Quero te ouvir, não
consigo...
Quero roubar-te um
minuto...
Vem aqui... fala comigo...
Visto a seda que me
abraça
No rigor do frio
intenso,
Que toca os rastros
da alma
Na brancura do teu
lenço.
Somente os campos no
livro
Da história, meu
velho pai,
Vão entender da
saudade,
Que fica, de quem se vai.
Enquanto neguei teus
passos,
Não pude pedir
bênção.
Nesta conversa, meu
velho,
Eu só te peço perdão!
Por muito, neguei
teus passos.
Nas andanças, não te
vi.
Meu velho pai, te procuro
Sabendo que te perdi.