Rodeio das Almas

Edson Marcelo Spode

Tem pouca gente que sabe

E bom nem dar muita cancha,

Mas quando a noite se arrancha

E só as estrelas tropeiam,

Antigas almas vagueiam

Por coxilhas e canhadas

Campeando ânsias passadas

Que ainda lhes cabresteiam.

 

E nas madrugadas escuras,

Com tudo em sono profundo,

Que se abre esse outro mundo

No breu da noite moqueado

E os espíritos do outro lado

Vem buscar em suas andanças

O gosto frio das vinganças

Ou um sonho inacabado.

 

E, somente, nestas horas

O tempo tem uma aresta

Bem onde se abre uma fresta,

Num campo fundo escondido,

Pro espectro vir transcendido

Por essa porteira divina,

Talvez por amor a uma china

Saudade de algum querido

 

Deve existir algum trato

Entre o guardião do portal

Pra que nosso mundo mortal

Tenha esse acesso estreito,

Ou faz vista grossa o sujeito

E deixe esse espírito fujão

Vir pagar, tostão por tostão,

Tudo que não fez direito.

 

E correm campos e várzeas

Com lidas imaginárias

Lembrando eras primárias

Em farras e pacholeios

Buscando antigos rodeios

Ansiando um corpo de veste

Pra sentir, da vida terrestre,

Ao menos alguns ponteios.

 

Rebolcam por entre taperas

Nas mais altas madrugadas

E vagueiam pelas picadas

Por onde tiveram cambichos,

Por vezes assustam os bichos

Que sentem seus chispaços

Ensaiando a tiros de laços,

Rumbeando antigos bolichos.

 

As vezes uma se descuida,

Chega bem perto das casas,

Quando se inflamam as brasas

Um vento morno nos passa

Decerto foi um esteio da raça

Centauro de alma bravia,

Sedento em beber poesia

E alguns goles de cachaça.

 

Nem mesmo noites de geada

Recolhem as almas sedentas

E nas que tem as tormentas,

Onde tudo vai se achicando,

São elas se enroscando,

Por alguma mágoa passada

Ou uma carreira roubada,

Que agora acertam peleando.

 

Por seus antigos sentimentos

Muitas almas se reconhecem

 E aquelas que se merecem,

Ainda carregam a este fado

Aquele amor não revelado,

O mais proibido romance

Ainda suplica uma chance

Ao beijo que nunca foi dado.

 

Essas namoram e se achegam

Cochicham antigos segredos

Ainda dividem os seus medos

Tem um ao outro de regalo

Já provaram, no maior pealo,

Que o laço do amor é tão forte

Que nem o tironaço da morte

 Vai conseguir rebentá-lo.

 

Muitas têm resquícios do dom

Que em vida lhes foi sinuelo

Mas sem ter carne nem pelo,

O que é material lhes embreta,

Quantas dessas almas inquietas

Foram de pessoas temidas

Enquanto seguem iludidas

As pobres almas dos poetas.

 

Tem algumas mais pesadas

Preferem noites encardidas

Quem sabe porque suas vidas

Foram de medos e aflições

E agora em suas condições,

Já há muito desencarnadas,

Só lhes reste ser confortadas

Com a força das orações.

 

Já outras de todo brancas,

Que nunca foram de enleias

E que preferem as luas cheias

Para vaguear pelas planuras.

Elas não afligem as criaturas

Nem sofrem nossa ausência,

Só vem sentir na querência

O que não tem nas alturas.

 

Quem não acredita que veja

Numa noite assim como agora,

Tem bem mais coisas lá fora

Que o simples plano terreno

O sentir humano é pequeno

Não apalpa tudo que existe

E talvez uma alma mais triste

E que chore o próprio sereno.

 

E numa dessas madrugadas,

Sorrateiro que nem carancho,

Tenteie,fresteando” o rancho,

Com uma vista bem de soslaio

E nas chuvas mansas de maio

Que as almas mais descuidadas,

Volta e meia são flagradas,

Quando a noite cospe um raio.

 

Mas um pouco antes do Sol

Pintar as barras da aurora

Tudo está quieto lá fora

Nem mesmo uma alma restou

E que uma por uma adentrou

No mesmo portal escondido,

 Porque o dia é proibido

A quem a morte pealou.

 

E quando findar meu tempo,

Aqui desse lado do plano,

Eu peço ao patrão soberano

Que a mesma graça me mande

Minha alma aqui ainda ande

Depois da viagem derradeira

E eu possa usar a porteira

Que vêm direito ao Rio Grande.