Prenhes

Carlos Omar Vilella Gomes

 

Minha alma está prenha, barriguda...

Não sei se de pandorgas, cata-ventos;

Ou seriam girassóis extemporâneos
Contrariando o grande astro em movimento?

Minha alma está prenha, foi tocada
Talvez por uma mácula do bem;

Pois à única prenhez imaculada
Até hoje os cristãos dizem amém.

Minha alma foi forçada, violentada,

Ou então foi possuída com carinho;

Frente ao gume tão malino de uma espada
Ou num beijo, numa alcova fogo e vinho.

O fato é que está prenha, barriguda,

Faminta pra parir o que virá...

Astros, glórias, gênios, sábios, soberanos
Ou apenas um versinho sem pensar.

Dor do parto já maltrata, já machuca,

Mas a alma com certeza terá o prêmio;

Mais um filho que ela pare na poesia,

Ou melhor, muito melhor se forem gêmeos.

Uma décima, um soneto, quatro quadras...

Tanto faz se o ventre verte coisas puras;

Do que é certo, ou da imoralidade,

Esse parto vai jorrar novas loucuras.

Minha alma está prenha, está pançuda...

Mal se aguenta na fraqueza das suas pernas;

Sem muleta, sem esteio, sem escudo,

Vai gestar e vai parir coisas eternas?

Seja fácil, ou difícil, impossível...

Só uma coisa a poesia nos engana;

E brutal, é desigual, é invencível...

Pra este parto não existe cesariana.

Bem me lembra o parto bruto de Ana Terra,

Ela, a terra, uma furna, uma tesoura;

Um cordão umbilical cortado à bruta
E o início de uma saga duradoura.

Muitas vezes sem parteira não dá certo,

Minha alma está solita num grotão;
Esperando o próprio parto, sem tesoura,

Só os dentes e a vontade tem à mão.

Talvez seja assim o parto da minha alma...

A semente desafiando bem e mal;

E a poesia, mais sublime, mais covarde,
Retalhada no cordão umbilical.

O que vem desta minha alma tão pançuda
Só no ato da nascença vou saber;

Se for bueno, tanta gente vai benzer...

Se for monstro, “pulamor”, Deus nos acuda!